O viciante jogo: sim, não, irrelevante

Este jogo, quando me foi apresentado, já conquistou mais um fã. Sempre gostei de RPGS, jogos de tabuleiro, card games, jogos onde você consegue usar bastante a imaginação e um mínimo de material. Já este, que na falta de um nome melhor chamo de “sim, não, irrelevante”, não precisa de nada mais que uma boa história e pessoas pensando.
As regras do jogo são simples. Uma pessoa fica responsável por contar uma história e as outras precisam descobrir seja o final da história, ou o motivo por trás dela. A maneira que isso é feito é fazendo perguntas para quem contou a história. Estas perguntas serão respondidas apenas com sim, não ou irrelevante.
Vamos a um exemplo.

História 1:
- Um homem entra em um bar e pede duas cervejas caras e duas cervejas baratas. O barman vira-se para o sujeito e diz: você é bombeiro. Como o barman sabia a profissão dele?

Perguntas possíveis a serem feitas:
- O homem estava usando uniforme?
R: Sim.

Ok. Essa é ridícula de fácil, mas só serve para dar uma idéia do jogo. Vamos para outra história.

História 2:
- Uma excursão, ao andar em um deserto, encontra o cadáver de um homem, um paraquedas e um palitinho de dente. Qual a explicação para isso?

Perguntas possíveis a serem feitas:
- O homem morreu por causa da queda?
r: sim.
- O palitinho era do homem?
r: Irrelevante.
- O palitinho furou o paraquedas? (sério, sempre fazem essa)
r: Não.
- O homem pulou com o paraquedas?
r: Não.
- O homem estava em um avião que estava caindo?
r: sim.
- Tinha mais alguém no avião?
r: sim.
- A outra pessoa morreu também?
r: Não.
- A outra pessoa pulou com o paraquedas?
r: sim.
- Eles tiraram no palitinho para ver quem ficava com o paraquedas?
r: SIM!

Existem várias histórias, sendo essas duas as mais fáceis que eu conheço. Outras são bem complicadas e muito divertidas. Todas que joguei até hoje eu já resolvi, e nem procuro o nome do jogo na Internet para não correr o risco de ler uma história que eu não conheço. Então essa é a minha dica, se você achou interessante, procure uma história na Internet (uma só!), e jogue com alguns amigos. Se eles gostarem, peça para que eles leiam uma história para você poder estar do outro lado e fazer as perguntas.
Jogar esse jogo em viagens, filas de espera ou até mesmo bares já virou a minha especialidade.

A narração áudio descritiva da copa do mundo

A copa do mundo acabou hoje. Pena, porque vou sentir falta. Não vai ter mais jogos emocionantes, comentaristas no Twitter (um parabéns pra vocês porque foi sensacional), e não vai ter mais narração áudio descritiva por um tempo.
Como sabem, sou um entusiasta da áudio descrição. Já Comentei neste post sobre como foi ir ao cinema e assistir um filme com áudio descrição, e como isso me deu uma maneira de aproveitar toda a experiência de ir em um cinema. Mas a áudio descrição não se restringe apenas a filmes. Pode estar presente em museus, teatros, e como eu vim a descobrir, em jogos de futebol.
A narração áudio descritiva foi um serviço disponibilizado pela Fifa em alguns estádios brasileiros, onde de dentro de uma cabine, dois narradores descreviam o jogo para pessoas cegas. Essa descrição se assemelhava com uma narração por rádio, com a diferença que ela era muito mais descritiva e precisa na hora de descrever todos os aspectos que se passavam em campo e fora dele, que as pessoas cegas no estádio não conseguiam ver. Desde cores dos uniformes, passando por comportamento da torcida até descrições bem detalhadas das jogadas, essa narração áudio descritiva me levou a loucura nos 3 jogos que eu pude ir aqui em BH. Colômbia contra Grécia, Bélgica contra Argélia e, a melhor partida de todas, brasil contra Chile.
Esse tipo de iniciativa da um espaço muito importante para as pessoas com deficiência, que são incluídas e podem aproveitar um evento desse tamanho como as outras pessoas.
Não posso deixar de ressaltar o trabalho da ONG que tornou tudo isso possível. Se a Fifa organizou esse projeto, quem pôs as mãos na massa e fez acontecer foram os voluntários e a equipe da Urece. Muito obrigado por isso!
Acho que nunca fui muito fã de futebol. O motivo eu não sei dizer, nunca fui muito ligado em esportes. Mas me senti parte de tudo isso, e só posso me despedir nesse texto dizendo que, Com certeza, sou um grande fã de copa do mundo.

Tentando escrever por 30 dias

Eu sempre quis escrever mais. Na verdade até me imagino, aposentado, sentado em uma casa confortável escrevendo para passar o tempo. Mas só esperar que as coisas aconteçam não ajuda muito. Quanto mais você se imagina fazendo algo e não toma nenhuma atitude e começa a fazer essa coisa de verdade, bate um desânimo e uma sensação que meio que pode se resumir – Você não consegue”.

Mas eu consigo sim. Ao invés de só imaginar que tenho escrito mais, vou escrever de verdade. Assisti a uma palestra chamada Try Something New For 30 Days (tente algo novo por 30 dias), que o cara diz para você tentar fazer algo novo, diferente, que você sempre desejou fazer por 30 dias. Não importa se vai ficar bom ou ruim, o que importa é que você vai fazer algo que sempre quis durante esse tempo. Ele diz que já tentou várias coisas novas, e que isso fez ele identificar o que ele realmente gostava. Do que ele viu que realmente gostou, continuou fazendo, e o que ele não gostou tanto assim, viu que não era algo tão legal quanto pensava. Ele também começou a lembrar mais das coisas que se passaram. Aquela impressão as vezes que temos que o tempo está passando rápido demais, nada mais é do que a rotina que se instalou na nossa vida e não vemos diferença entre nossos dias, mas tentando algo novo a cada mês, com certeza vamos ter lembranças diferentes de cada um deles.

Eu vou topar o desafio e tentar escrever um texto para esse blog todos os dias.

E você? Tem algo que você sempre quis começar a fazer mas nunca conseguiu, não teve tempo, ou só teve preguiça mesmo? Vamos começar comigo, faça algo novo por 30 dias. E se fizer, posta aí nos comentários o que será. Pode ser qualquer coisa, tentar a tocar flauta, aprender russo ou treinar suas habilidades em pintura. Vamos tentar algo!

E a aventura continua – voltei a morar sozinho

Estou já uma semana morando em BH. Essa foi a primeira semana de trabalho na minha vida. Digo trabalho porque antes só estagiei, e acredito que seja algo completamente diferente estagiar de trabalhar. Dessa vez foi trabalho mesmo, com direito a oito horas (ou mais), diárias. Falando em trabalho, não vou comentar sobre ele. A verdade é que não sei o que posso comentar e o que eu não posso. Para não cometer nenhuma gafe logo no começo, vou pular essa parte e vou contar um pouco mais como está sendo morar novamente sozinho.

Ter feito o intercâmbio na Alemanha me deu uma boa idéia do que esperar quando eu for morar sozinho. Dessa vez as coisas foram muito mais fáceis porque vim na primeira vez para BH com os meus pais, que me ajudaram a alugar um apartamento. Apartamento que encontramos em tempo recorde. Em menos de uma semana rodamos quase todo o bairro, achamos um apartamento, fechamos com a imobiliária, limpamos o lugar (que tava uma zona, sujo pra kct), compramos os móveis, eletrodomésticos e deixamos tudo certo. Aliás, fica registrado aqui mais uma vez o meu muito obrigado aos meus pais que transformaram um lugar muito zoado em um lar. Sem brincadeira, fiquei muito bem instalado e graças a eles. Valeu aí pai e mãe! :)

Minha rotina tem sido acordar cedo, por volta de 07:30 ou 08:00. Acreditem se quiserem, eu consegui acordar religiosamente todos os dias esse horário. Vou para o escritório, tomo café por lá mesmo, trabalho por volta de oito horas diárias, sem contar o tempo pra almoço e café da manhã. Chego em casa lá por umas 7 da noite e passo o resto do dia na Internet em casa. Até aí tudo bem, mas como não poderia deixar de ser, certas dificuldades surgem nos lugares mais inesperados.

Inicialmente eu levaria meu cão guia (oi, Timmy!), mijar / cagar na frente do prédio, no meio fio da rua. O problema que a rua é tão inclinada que quando ele faz cocô, ele sai rolando e eu não consigo juntar. Deixa eu aproveitar a oportunidade e contar como eu faço para juntar o cocô do cachorro. Que merda de texto, mas vamos lá. Obviamente eu não espero ele terminar e fico lá abaixado cheirando o chão procurando pelos dejetos, ainda sou um bípede e me comporto como tal.
Já que não da para levar na frente do prédio, eu vou na rua ao lado que é plana. Chego lá, dou o comando para ele fazer as necessidades. Ele começa a girar, a fazer o ritual do cocô. Ele tem toda uma técnica para conseguir se aliviar. Ele gira, gira, se abaixa e começa a andar. Aí, se eu não seguro o bicho pela coleira bem forte, ele começa a cagar e andar pra mim. Literalmente. O truque é notar quando ele começa a girar, quando ele para por alguns instantes, quer dizer que ele começou. Eu sigo a guia dele, seguro ele pela coleira no pescoço e aponto o meu pé na direção da bunda dele. Quando ele termina, eu deixo ele se mover novamente soltando a coleira. Me abaixo e pego com a sacolinha. Mas esse não é o problema, o problema é jogar a sacolinha no lixo. Juro, essa é a parte difícil.

A lixeira fica na esquina do meu prédio. Por mais que eu treine o meu cachorro para identificá-la, ele tem se recusado a ir até lá. Na cabeça dele só existem dois destinos possíveis quando pisamos naquela calçada. A entrada do prédio ou a entrada da padaria que fica na esquina. E olha que já fiz várias vezes o treinamento de targeting, algo que ele costuma ser bom, para identificar lugares / objetos. Daí quando vou procurar a lixeira ficamos lá andando para cima e para baixo da calçada com a sacola de cocô na mão e os vizinhos lá na janela provavelmente olhando e pensando: “que horror! ele nem consegue achar a porta de casa.”

Eventualmente eu desisto de tentar achar a lixeira e peço pro porteiro ou para algum transeunte me mostrar onde está a lixeira. As vezes eu acho ela, mas é por sorte. Para ser justo, provavelmente ele não tem achado porque ela é bem alta e talvez esteja fora do campo de visão dele e porque ao redor tem várias árvores, uma rampa do mal e ele não quer me levar até lá porque acha que não é seguro. Mas eu sei que tem como, e como só fizemos duas vezes o treinamento de targeting, acho que em mais uma semana ele vai conseguir achar a lixeira.

Como estou morando a meia quadra de onde trabalho não estou precisando andar muito pela região. Ainda bem, porque as ruas aqui são muito confusas. Tem ruas que são paralelas entre si e outras são diagonais, o que cria uns cruzamentos muito loucos de várias ruas. Aliás, aqui não são quadras, são triângulos. Toda vez que tento imaginar o mapa mental das ruas, eu suspeito que as regras da geometria euclidiana são ignoradas porque posso jurar que a soma dos ângulos de alguns triângulos (que deveriam ser quadras), estão dando mais que 180 graus.

Mas não estou acomodado em casa. Para vocês verem que eu tenho futuro para criar o mapa na minha cabeça do lugar, eu já consegui dar informação para uma pessoa de onde ela deveria virar para chegar em uma rua. Também já fui passear em uma praça aqui perto, que um amigo meu cego que também tem cão guia me recomendou passear. Aliás, isso foi muito interessante. Ele me deu algumas instruções de como chegar no lugar a partir de um ponto que eu já sabia chegar. Foram instruções mais do que úteis porque como ele enfrenta o mesmo tipo de dificuldade do que eu, a explicação dele foi super precisa. O passeio dessa manhã foi muito agradável. Além disso, cada final de semana estou tentando ir almoçar em um restaurante diferente para conhecer a região e obviamente, conhecer os restaurantes :P

ps: Espero que minha cortina chegue logo porque não to podendo ficar de cueca na sala. Tem uma série de prédios ao lado que podem ver minha janela e o meu corpitcho nu.. Do que adianta morar sozinho e não poder andar de cueca em casa?

A Globo e seus Coitados

O mundo já é cheio de estereótipos. Se você tem uma deficiência então, ganha-se muitos outros automaticamente. No caso da cegueira, personagens cegos na maioria das vezes são retratados seguindo duas vertentes: o coitado inútil e o herói poderoso. A Globo, mais uma vez, coloca um personagem cego em uma de suas novelas. Eu não assisto novela, acho que isso eu nem preciso dizer. Mas fiquei impressionado com algumas poucas cenas que me foram descritas deste tal cego, que nem consegue saber se está de dia ou de noite. Acho que esqueceram de apresentar ao “roteirista” o conceito do relógio.

Em uma pesquisa que fiz aqui, essa não é a primeira vez que isso acontece. Nas novelas América, Caras e Bocas e na mais recente, Amor a Vida, os mesmos problemas já foram observados. Personagens cegos que são menos do que pessoas, agindo feito como se fossem retardados!

Por que eu me importo, talvez seja a questão correta. Infelizmente o alcance que essas novelas possuem é enorme. Quer queira, quer não, o que será mostrado lá será base de julgamento para muita gente no nosso país, retrocedendo em décadas o trabalho de inclusão que é feito. A desinformação sempre foi o maior problema para as pessoas com deficiência ao relacionarem-se com outras pessoas, e ao levantarem esses estereótipos de maneira tão caricata e estúpida, tudo só piora e se agrava.

A cena que fiquei sabendo mostrava este cego aproximando-se da piscina, caindo nela e se afogando. Esse mesmo cego que quando enxergava, dono da casa, sabia nadar. Eu não sabia que precisa-se de um par de olhos para nadar, se eu soubesse, não teria feito anos de aula de natação. Desculpem o atrevimento.

Ouvi dizer também que a intenção do “roteirista” era representar as dificuldades de uma pessoa que acabou de ficar cega. Imagino que dificuldades não implicam em atraso mental, coisa que o personagem parece mostrar só para piorar essa imagem caricata de coitado. Além disso, como já comentei, as dificuldades mostradas não chegam nem perto do que seria a realidade.

Enquanto usarem personagens cegos para mostrarem coitados ou heróis, apenas estarão fazendo um desserviço e prejudicando a imagem dessas pessoas, que tentam diariamente combater esses preconceitos e estereótipos que as perseguem. No dia que puserem uma pessoa com uma deficiência, que viva sua vida da maneira que ela realmente vive e esse foco absurdo na superação, independência, a deficiência em si for eliminado, teremos uma melhoria. Afinal, eu não vivo aqui o dia inteiro me lamentando ou pedindo se é dia ou noite, pelo contrário, eu tento viver minha vida da melhor maneira possível e acabo fazendo a maioria das coisas que todas as outras pessoas fazem. Isso sim é mostrar o que é inclusão e o que é a realidade.

Meu primeiro emprego

Quando eu recebi a boa notícia eu logo pensei em escrever um post para o blog. Meus amigos mais próximos que pedem mais posts por aqui sabem como eu vivo reclamando que eu não tenho ideias sobre o que escrever, mas o problema que eu fiquei muito animado e queimei a pauta escrevendo no facebook. então agora não é mais novidade, a ideia do post ser novidade já se perdeu. Mas mesmo assim eu vou escrever, porque esses dias caiu a ficha que o que eu escrevo são as minhas fotografias. Explico. Já que eu não posso lembrar do passado olhando para fotos, a melhor coisa que eu posso fazer é guardar esses momentos através das palavras que eu escrevo.

Chega de enrolação, a “novidade” é que EU VOU TRABALHAR NO GOOGLE!

Como eu escrevi esses dias, me formei na faculdade, e desde então comecei a Abuscar o que eu faria da vida. Além de alguns outros projetos que iniciei, que espero contar no futuro, eu comecei a me preparar para o processo seletivo do Google.

Uma busca rápida no Google sobre o próprio Google (inception), sobre como eram as entrevistas, que tipo de perguntas eram feitas, como todo o processo funciona, eu já encontrei várias pessoas descrevendo como foram suas entrevistas e como elas falharam nelas. Os posts não serviram apenas para dar medo, na verdade eles eram bem úteis ao mencionarem o que os candidatos poderiam ter feito melhor.

Para me preparar para a entrevista, revisei muita coisa que aprendi na faculdade, principalmente na área de algoritmos e estruturas de dados, grafos, matemática discreta e alguns aspectos das linguagens c/ c++. Consultei frequentemente os livros Introduction to Algorithms para a parte de algoritmos e grafos, Cracking the coding interview para exercícios rápidos sobre assuntos variados, the Algorithm Design Manual para uma recapitulação das classes de problemas da computação e as principais maneiras de resolvê-los. Para praticar minhas coding skills fiquei um bom tempo nos sites project euler, onde resolvi alguns desafios, a maioria relacionados com a matemática, o que foi muito bom para revisar conceitos de probabilidade, combinação, teoria dos números, etc. Além deste resolvi alguns tantos outros desafios do SPOJ, site clássico com problemas para quem pratica para as maratonas de programação.

As entrevistas presenciais foram bem pesadas, como todo mundo dizia na Internet. Achei elas bem justas, foram feitas todo o tipo de perguntas, e eu tive uma boa chance de mostrar o que eu sabia bem, o que eu sabia mais ou menos e o que eu não dominava ainda. Passei por 5 entrevistas presenciais, duas na parte de manhã e 3 na parte da tarde, cada uma por volta de 50 minutos a uma hora. Foi um esforço considerável. Lembro que na última entrevista, ao escrever um código, eu demorei 10 minutos para escrever uma simples busca binária de tão cansado que eu estava.

Mas valeu a pena, 3 semanas mais tarde, eu recebi a ótima notícia: eu havia conseguido a vaga!

A única parte ruim em todo esse processo é ter que mudar de Curitiba. Eu realmente gosto da cidade, ainda porque a namorada está por aqui, a família e todos os amigos. Mas eu darei um jeito e pretendo voltar ainda uma vez por mês para visitar todo mundo.

Já vou pensando desde já nas coisas que vou precisar arranjar quando for morar sozinho. Acho que ter feito o intercâmbio ano passado me deu uma boa ideia de quais são minhas maiores dificuldades ao chegar em um lugar novo. Pretendo tentar resolver esses meus problemas maiores já nos primeiros dias, logo quando chegar em BH.

Acho que a maior dificuldade é, e sempre será, me locomover sozinho. mesmo com a ajuda do meu cão guia, o meu fiel escudeiro Timmy, ‘não é muito fácil para qualquer deficiente visual se acostumar de cara com um ambiente novo e complexo como uma cidade. Na minha cabeça as ruas de BH são confusas demais. As vezes as travessias das ruas são tortas, certos pontos da cidade 3 ruas se encontram em um mesmo cruzamento, graças a avenida do contorno, uma rua que não consegue ser reta e faz com que as outras encontrem-se com ângulos estranhos, só tornando meu mapa mental da região mais confuso. Mas isso é temporário, logo eu me acostumo com tudo isso a medida que for andando mais e mais e depois tudo passa a ser normal. Assim espero.

Estou muito animado com o início do ano que vem. Acho que vai ser uma experiência ótima. E pode deixar que a medida que eu for me ferrando, queimando as lasanhas de forno e vestindo o par de meias de cores trocadas eu posto aqui. Afinal, pra que ler esse blog se não for para ver essas desventuras?

Decisões

Por alguns segundos, me perdi em pensamentos enquanto observava aqueles olhos, tão parecidos com os de minha mãe. A voz do meu passado, tão calma e ao mesmo tempo carregada de ódio, soava nos meus ouvidos como se estivesse  presente no  carro aquela hora.
- Você está me ouvindo? 
- Como? Perguntei, um pouco desnorteado.
- Eu estou aqui falando já algum tempo e você parece que apagou, cara. – E não me peça para repetir, só preste a atenção de agora em diante.
- Ah, ok -  concordei, também,  com a cabeça – olhei para a estrada, para me desviar daqueles olhos. Vi pelo espelho do carro a garota ao meu lado se remexer,  um pouco desconfortável, enquanto eu evitava, por um triz, de colidir com uma moto que entrava na pista de forma brusca.
- Não esquenta. – eu disse, sorrindo para ela. – Eu sou o cara mais rápido que você vai conhecer.
No momento que faleis essas palavras, me arrependi. Logo lembrei da minha mãe novamente, a quem eu tentava esquecer alguns instantes atrás. Ela sempre dizia que me faltava iniciativa, que eu não tomava as decisões  pertinentes. Ela sempre acabava resumindo dizendo: – “Você não é rápido, filho.” 
A verdade que eu queria que ela estivesse aqui hoje para ver no que eu me tornei, possivelmente, o cara mais rápido do mundo.
- A onde é que estamos indo? – Perguntou a garota, remexendo-se  estranhamente no banco novamente. Ela não parecia estar nervosa, mas sim em alerta.
- Você já vai ver.
- Não foi isso que combinamos. Disse a garota com uma tensão na voz que eu não esperava que viria tão cedo. Logo ela engoliu as palavras dela, e eu também.
Um pouco antes de chegarmos no destino, eu vi o meu “parceiro”. Ele corria atrás de uma outra garota magrinha e baixinha, que estava de bicicleta. 
A garota ao meu lado gritou, enquanto mandava eu parar o carro. Eu já parava o carro de qualquer modo  enquanto via diante dos meus olhos todo o plano se desfazer em pedaços. 
Enquanto eu  remoía, mais uma vez, a minha falta de sorte, a garota puxou uma faca e encostou no meu pescoço.
- Paradinho aí, cara. – Eu já sei quem vocês são, graças ao seu amigo monstrengo ali. – Ela dizia, enquanto olhava com nojo para o homem de quase dois metros e meio de altura, com uma pele que parecia couro, interronpida por    alguns pelos que   saíam de camadas mais abaixo da pele,  e um par de chifres, que mais pareciam duas grandes bolas na cabeça dele, porque mal tinham pontas. Ele   corria atrás da outra menina. Com um pouco de medo na voz, ela continuou:
- Agora grite para ele parar e não tocar na minha amiga.
Não prestei a atenção no que ela disse. Novamente eu havia me perdido nos olhos dela. Tomei minha decisão em um micro-segundo. Saltei para fora do carro em menos de um piscar de olhos, percorri a pequena distância que era dar a volta no carro, abri a porta dela e a joguei para fora. Antes mesmo que ela soubesse o que se passava, eu já havia posto a garota  inconsciente com uma pancada certeira ao lado da cabeça.  No segundo seguinte, eu estava ao lado do meu parceiro, que havia tropeçado estupidamente, o que só me fazia lembrar de como eu odiava trabalhar com ele.
- Anda logo, Chifrada. – É a outra garota que sabe de tudo. 
- Como é que você sabe? – disse ele, levantando-se sem jeito.
Não respondi. 
Corri atrás da garota, que entrava em uma casa de madeira e batia a porta. Escutei o barulho da chave e decidi esperar pelo chifrada, para bolarmos um plano. Precisávamos dessa garota viva e eu já me virava na direção do meu parceiro, para dizer o que eu havia decidido, quando ouvi ele vindo, correndo na minha direção, saltei para o lado praguejando,  enquanto ele ia de cabeça contra a  porta de madeira. Aos meus olhos, pareceu  que ele havia mergulhado simplesmente naquele monte de madeira. Em um segundo tudo estava de pé, e  no outro a parede da frente da casa estava no chão, e o teto inclinava-se para frente, vindo a cair sobre o Chifrada alguns segundos depois. 
Antes que uma viga atravessasse sua nuca, eu empurrei a ameaça para o lado, e comecei a puxá-lo daquele monte de entulho. Registrei a garota que procurávamos saindo da casa por uma porta traseira e iria alcançá-la quando me surpreendi novamente, me deixando sem ação mais pelo ódio do que qualquer outra coisa,   Chifrada chacoalhou-se como um cão molhado, jogando destroços para todos os lados, e voltou a correr. Ao invés de contornar a casa para pegar a menina, ele foi direto para a parede de trás, chocando-se contra ela também. A parede caiu, como se fosse apenas uma peça inteiriça encaixada ali, por sorte ele conseguiu escapar  do teto que  beijava o chão completamente.
Deixei que ele a pegasse mas, para meu completo espanto, ao invés de apenas capturá-la, ele a chifrou, como todo o resto, jogando seu corpo sem vida  metros de distância longe.
-  Mas que porra! – Gritei o mais alto que podia. – Que merda você fez?
 Ele rugiu, como se fosse um animal, olhando para cima.
- Chifrada! Que porra! – Gritei novamente, tentando, sem saber porquê, que ele me notasse.
Quando ele olhou para mim, eu entendi. Foi uma revelação que veio muito mais rápido que qualquer uma das minhas rápidas decisões. Eu não tinha decidido porcaria nenhuma. Meus planos, não eram decisões, minhas   ações, não eram o resultado de uma avaliação rápida da situação. O que eu achava ser uma rapidez ao agir não era muito melhor do que o que o Chifrada acabara de fazer. Aquele trabalho, apenas uma justificativa para eu poder usar meu poder de alta velocidade, era mais um erro que eu havia cometido.
Puxei minha arma e  engatilhei em um espaço de tempo que faria qualquer duelista do velho oeste me invejar por eras. Mirei no peito daquele desgraçado, onde um tufo de pelos se sobressaia na pele,  e atirei.
- Por quê? – Disse ele, se engasgando com seu próprio sangue,  os olhos meio revirados, dando mais ainda a impressão de ser apenas um animal confuso.
- Foi minha última decisão por impulso, Chifrada. – Não pude resistir, você me faz lembrar demais de mim mesmo.
 Eu já estava no carro antes mesmo de ouvir o baque do corpo dele caindo no chão. Eu sentia que finalmente havia decidido  algo de verdade e que havia tomado a decisão correta. Por impulso, quase botei fogo nos restos da casa, de tanta raiva que estava. Ao invés disso, peguei a garota inconsciente  nos braços e a coloquei no carro. Naquele instante sorri, enquanto ligava o carro. Agora eu decidia. Quem sabe, agiria.

Enfim, formado

Me formei na faculdade. Foi mais ou menos na metade de agosto que terminei todas as pendências. Demorei um semestre a mais do que o previsto, porque fui fazer um intercâmbio na Alemanha. Quando voltei, tinha apenas que fazer o tcc, mas peguei mais duas matérias optativas também, porque os assuntos eram legais.

Para quem não sabe, eu cursei bacharelado em ciências da computação. Digo desde já: Gostei muito. Um ano antes de entrar na faculdade, eu estava quase me inscrevendo no vestibular de direito, por isso é engraçado quatro anos depois ver a diferença da minha escolha. Mas por que eu mudei tanto assim a minha escolha?

Quando eu estava acabando o meu ensino médio, as coisas não estavam ficando mais fáceis para mim. Na verdade, tudo complicava cada vez mais, muita coisa eu não podia estudar sozinho, o que me fazia sentar com meus dois melhores amigos e estudarmos juntos. As matérias de humanas eu conseguia dar conta de estudar tranquilamente, mas as exatas eu sempre precisava da ajuda de alguém. Não é que eu não entendesse; Na verdade, eu ia super bem em matemática, física e química, mas é que eu não conseguia ler as fórmulas, analisar os gráficos e absorver o conteúdo em geral sem alguém lendo aquilo para mim.

Na época, quanto mais eu participava da Internet, eu conhecia mais cegos que se deram bem na vida estudando direito. Eu notava que eles tinham um certo nível de autonomia e era aquilo que eu queria para a minha vida, logo associei que fazendo direito eu conseguiria o mesmo. O ano foi passando, eu continuei estudando, e lembro-me claramente do dia que consegui resolver vários exercícios de uma prova de uma olimpíada de matemática. Então veio o questionamento de um professor:

- Para que curso você vai prestar o vestibular?

Eu dei a resposta: direito. Já sem muita convicção, até porque eu só tinha pensado no nível de autonomia que teria no futuro, não em todos os passos até chegar lá. E aquela resposta que eu dera, soava estranha para mim, havia algo errado. Não era bem aquilo que eu gostaria de fazer para chegar lá.

Com o tempo, me convenci de trocar de área. Descobri que o meu maior medo era enfrentar um curso onde eu fosse depender muito das outras pessoas, coisa que eu não queria de jeito algum. E, de certo modo, posso afirmar que não dependi das pessoas nesses últimos quatro anos. Fiz o melhor que pude, e desde o começo busquei alternativas de como produzir meu próprio material de forma acessível, para que eu pudesse ler e estudar sozinho. É claro que houveram várias ocasiões onde isso não foi possível, e eu estudei com os meus colegas, o que não foi de todo mal.

Que outro aluno não estuda junto com os colegas?

Nessas situações, sempre tentei não apenas sentar lá e ouvir eles lendo as coisas para mim, mas sim tentar explicar o que eu havia entendido e ajudar de alguma forma.

Desde que me formei, ouvi várias piadinhas. Desde aquelas que dizem que eu seria o criador do sucessor do Facebook até aquelas que dizem que deixei de ser uma esperança para a sociedade para ser um problema social, no caso, um desempregado :P

Todas essas piadas tem um fundo de verdade. Algo que trazia um conforto na faculdade era que você entrava, no final havia um objetivo, e entre esses dois pontos uma série de passos a serem dados, no caso, as diferentes matérias da grade do curso. Ao sair da faculdade, os passos já não são mais tão claros. O que deve-se fazer agora? Que tipo de emprego e onde deve-se procurar?

São várias perguntas que definem um objetivo, mas ainda falta-se os passos até lá.

O fato é, as escolhas agora parecem muito amplas, o que torna as coisas mais interessantes, mas muito mais difíceis também. O que pode levar qualquer um de desempregado até o criador do sucessor do Facebook, como dizem nas piadinhas.

Brincadeiras a parte, não pretendo nem ficar como desempregado e não acho que serei o criador do sucessor do Facebook, mas acredito que estarei aí no meio, mesmo que isso contenha uma gigantesca gama de opções.

E confesso para vocês: Estou animado pra caramba com as possibilidades.

Discrimination in Europa Park

It  happened in March this year. It took me so long to write about
this, specially because I was trying to forget about it. It was one of
the most humiliating experiences of my life, and it seemed natural to
ignore it and let it go. But I was wrong.

A friend of mine told me that he would be traveling to Germany, and
was thinking of visiting Europa Park,  one of the most famous theme
parks in Europe. I got stuck for two seconds and said – don’t do that.
Like me, he is blind too, and he would never be able to enjoy the
park. He would be able just to enter, and possibly  leave  holding
tears back as I did.

On March 28.th, 2013, I left Karlsruhe, where I was living, with my
girlfriend to Europa park. We were really excited to ride some roller
coasters and have just a great day. When we got to the Park,I was
admitted for free, what would  turn out latter an horrible way to
minimize and  mask the bad attitudes of the park, i’d rather had paid
for the entrance ten times not to experience that.

My girlfriend asked me what I would like to do first, and I wanted to
go straight to ride a roller coaster, so we did it. Well, almost did
it. We were blocked on the entrance of the attraction  by a security
guy, who sharply said: – Kannst du sehen? Kannst du wirklich sehen?
(Can you see? Can you really see?)

I said – Nein, nein, das kann ich nicht. Warun? (no, no, I can’t do
this, why?)

We found out that we couldn’t ride that roller coaster, even worse, none of the others either!

Why? Just because I am blind. That’s right, the fact that you can’t see is enough for Europa park not let you enjoy the best attractions and have fun. You are allowed to go to the kids’ attractions, and why not have an ice cream?

We tried to obtain an official explanation from the park, why I
couldn’t ride the roller coasters. Nobody knew the exact answer.
Nobody could explain us what was going on, they just said: – You just
can’t. Safety reasons. The staff was completely  inefficient.

Now let me tell you that I have already been in other roller coasters
before. I have visited  at least 4 different  theme parks in Brazil. I
have friends, from USA, that visit Disneyland and Disney World.
Disney Land even  has also special devices, which offers audio
description for the attractions.

I am still wondering what is the big deal of getting into the car and fasten the safety belt. Why? They seem to think that I am not able to do that. That may be too dangerous for a blind person to do!

With a little of research, I found out that other people also complained about this. One of the reasons the park does this is because of some German laws, which no-one could point me out, apparently, says that, if you are disabled, and you can’t leave the car on your own in case of an accident, therefore, you are not able to ride it.

So, Deutschland and Europa Park,  it means that disabled people can’t fly on airplanes either? I can assure you that an accident in an airplane is much bigger, complex and dangerous than a simple roller coaster. And yes, we do have safety procedures to evacuate people with disabilities on those occasions, so why not for roller coasters too?

People sometimes ask me  - is there discrimination yet? – Yes, there is. This kind of attitude, that I have just described, is cruel, dumb, and it’s created by people who don’t even know what having a disability looks like. They still think that we are still locked in our rooms, listening to radio all day long and begging for someone’s help all the time. They couldn’t be more wrong. We are on the streets, universities, movies theaters, and we want to be on the theme parks too!

I left Brazil on my by myself. It was just me and my guide dog to study abroad. We did several stuff on our own. We lived 7 months in Germany, and by the date my girlfriend from Brazil tried to visit us, so we could travel together, these things happened. I was shocked and sad. This occasion really knocked me down. Imagine if you were blocked in one place because of your skin color, religion, sex, social class. It was just because I was blind and had a disability, not because of safety reasons. Point me out, if you can, why blind people can’t ride on roller coasters. I dare you to do so. Evacuation? We do that on airplanes, as I said, why not in roller coasters, I ask you again.

I am writing  this text to let people know, how this park treats people with disabilities. Never go there. Concerning this unknown law, if there is one, blind organizations in Germany should do something about that. It is an insult, a violation of  the rights of
people with disabilities.

I left the park really sad that day. My girlfriend got her money back, but they are not finished paying us. That feeling that I felt  has a price too high that they can not afford. One day, I hope that it could change. I will never return to that place in my life, but someday, another blind person will ride that roller coaster, and go home happily.

Quatro anos!

Ele é amarelo. Ou dourado.Ou até mesmo da cor do sol. Engraçado que pode ser cor de batata palha também. A verdade que eu nem sei mais que cor ele é.

Ele tem quatro patas, e dizem que tem cara de chorão. Acho engraçado, porque para mim ele vive sorrindo. Ele sorri balançando o rabo. Admito que é um pouco diferente, mas é um sorriso sincero.

Ele parece comigo. Gosta muito de comer e de dormir. como um amigo uma vez muito bem apontou, gosta é de sair para dar uma volta, ficar perto de gente. voltar para casa, comer e dormir.Deve ter aprendido comigo, só pode.

Acho que ele aprendeu algumas coisas comigo, mas eu aprendi muito mais com ele. ele gosta de trabalhar, e não importa a hora que isso tem que ser feito, ele levanta e faz.

A gente anda sempre junto por aí. Eu vou indicando aonde eu quero ir, e ele vai cuidando para que eu chegue lá.

Já estivemos em tantos lugares juntos. Estados Unidos, Brasil, Alemanha, Portugal. Parece muito, mas ele nem começou a cansar. Deixe que ele durma algumas horinhas que ele estará pronto para outra.

Meio que dá para adivinhar que esse texto é sobre um cachorro, né? O problema que isso está parcialmente certo. Na verdade esse texto é sobre meu amigo, que faz aniversário hoje. quatro anos de vida, dois de companheirismo ao meu lado.

Feliz aniversário, Timmy!