Os Tacos de Golfe do Sr. Verde

Foram chegando pouco a pouco. O lugar era familiar e comum para todos. Alguns passavam mais tempo, outros menos. Isso não importava. Era um espaço deles, que, se por ventura vazio algum momento, era impossível estar silencioso. Um lugar cheio de ecos nas paredes. Histórias contadas e recontadas, avisos e conselhos dados e repetidos serviam como os quadros. A mobília não era esplendorosa, mas era robusta. Servia bem o seu propósito. Um pano de fundo. Porque o lugar era deles, mas mais importante que tudo, o lugar não era nada sem eles.
Foram chegando pouco a pouco. Alguns, de fato, haviam saído e voltavam. Outros poucos, apenas sentavam lá, como se nunca tivessem saído.
Sr. Óculos seguia sua rotina lendo o jornal. Eventualmente, discretamente, levantava o rosto e observava. Ouvia e participava. Ele estava sempre ali. Ele tinha criado aquele lugar, e, por mais que não fosse dele, era quase como o lar.
Do outro lado da mesa, não menos presente, Sr. Verde começava uma história. Não importava que ninguém o ouvisse de primeira. Afinal, eles estavam chegando, e, mesmo que atrasados, iriam saber do que se tratava. Sr. ?
também estava lá. Sempre desatento, perdido em pensamento e refletindo. Seu olhar vagava pelas paredes e contemplava o lugar na sua totalidade. Uma sala, não muito grande, dava espaço para uma mesa pesada de madeira ao centro. No canto, um bar e seu balcão exibiam seu conteúdo convidativo para quem quisesse ver. As paredes, cobertas por cortinas grossas e pesadas, absorviam os sons e criavam uma atmosfera de conforto e sofisticação. Mas Sr. ?, ao menor sinal de história, voltou-se para Sr. Verde, e vestiu sua máscara questionadora. Amigável, mas profunda. Carregava o tipo de olhar que sabia que ia conseguir a verdade. Verdade que teria que esperar. Porque eles ainda estavam chegando, e a história alongou-se só para esperar.
Sr. Passos de Dança acomodou-se confortavelmente na cadeira. Não seria de outra maneira. As cadeiras foram sua escolha pessoal. De couro, espaçosas e refletindo seu bom gosto, elas agradavam a todos. Ele, sempre ausente, mais ouvinte do que locutor, deixava sua marca, mesmo que sutil e elegante. Puxou seu charuto e resolveu esperar, tirando baforadas de seuCohiba.
Sr. ? levantou-se e foi até o bar. As garrafas, perfiladas na prateleira atrás do balcão de mogno do bar, eram todas selecionadas a dedo. Sua coleção pessoal, ele sabia como animar uma festa, dar o rumo de uma conversa ou como manter o silêncio, caso o dia fosse para se lamentar. Não era, e ele sabia. O dia era um dia de descoberta, um dia de indagações. De planejamentos, talvez? E por conta disso, resolveu inovar. Trouxe, com cerimônia até a mesa, sua garrafa de ocasiões especiais. Sem rótulo e sem adorno, ela era apenas uma garrafa e um símbolo.
Sr. Nanquim chegou, como sempre, fazendo barulho. Não parou de falar um segundo depois que pôs o pé para dentro da porta. A história do Sr. Verde, teve que esperar. Ninguém se incomodou. Eles gostavam de ouvir Sr. Nanquim falar, não porque ele sempre sabia o que dizer, mas sim porque as palavras pareciam se render para lhe agradar. Toda história tinha dos seus pitacos, e toda frase de impacto era apontada por si.
- Quitutes batutas para os senhores – Começou dizendo Sr. Nanquim, logo que sentou-se na cadeira.
Os outros, já acostumados, não disseram nada. Reviraram os olhos levemente dado o vocabulário pouco formal do colega, mas era costume, e o costume deveria ser respeitado.
Com um pigarro, Sr. Verde, voltou a contar a sua história.
- Tacos de golfe.
Todos assentiram. Era inevitável, o debate sempre voltava a esse assunto central.
- Tenho criado teorias mais do que práticas sobre os tacos de golfe, mas isso já era esperado. Não é que me falte a coragem de por tudo isso em prática no campo, mas é que penso a efetividade de tais métodos que temos debatido.
Eles assentiram novamente. A conversa não era nova. Sr. ?, por um segundo, pensou se realmente valia a pena ter tirado a sua garrafa especial da prateleira, mas continuou ouvindo sem mover um músculo.
- É, evidente já neste ponto, que todos já possuem seus próprios tacos de golfe. Alguns, da sua própria preferência.
- As marcas japonesas – Disse Sr. Óculos virando-se para Sr. ?. – Você sempre foi um apreciador das marcas japonesas.
Sr. ? abriu um leve sorriso.
- Sim.
- Já outros – continuou Sr. Verde – Mudaram de idéia, acharam novas preferências.
- Os tacos escandinavos – Disse Sr. Nanquim, degustando um de seus quitutes. – Ainda os aprecio, embora jogue com outro.
Todos ficaram em silêncio por um tempo, ou, tentaram ficar. Como, já dito antes, o silêncio era impossível. Os ecos de histórias passadas ecoavam nos ouvidos de cada um deles, lembrando de todas as vezes que debateram aquilo.
- Já não sabemos onde isso vai dar? – Disse Sr. Mochila, entrando pela porta. – Eu já disse antes, repito agora, tacos de golfe querem ser jogados. Todos eles! – Disse ele enfaticamente. – Debatemos sobre preferências, debatemos sobre dificuldade em obtê-los, mas no final, nada disso importa. O que importa é o jogo, não encontrar o taco perfeito.
Sr. Mochila, era sempre o último a chegar. A verdade que, sua chegada era sempre aguardada por todos. Sem sombra de dúvida, ele era o mais experiente de todos no jogo, e suas opiniões eram valiosas e importantes, embora, muitas vezes, inevitavelmente acabassem sendo as mesmas. No entanto, não era sua culpa. A verdade, imutável que era, não ia mudar de forma só para que ele pudesse mudar seu discurso.
- Concordo com o Sr. Mochila – Disse Sr. Passos de Dança, em um momento raro de loquacidade.
Todos pareceram surpresos por um instante, não pela concordância, mas pela súbita participação.
- Sabemos – Começou Sr. ? – Mas será este o caminho certo? Eu sempre pensei diferente, e ainda estou convicto de minha posição.
- Não concordo nem discordo de todos – Dizia Sr. Óculos. – Acredito estar no espectro intermediário desta situação, acredito que ambos os lados tem valia.
- Me permitam terminar – Interrompeu Sr. Verde a discussão, – Eu nem mesmo comecei a história, estou na introdução apenas.
Todos voltaram a seus lugares e continuaram a ouvir.
- Estava eu, caminhando sobre o campo verdejante de golfe. Onde a ação acontece, onde a vida se apresenta. Andava sem rumo e sem propósito aparente, a não ser o breve espairecer que é possível nas manhãs frias de julho, aquelas perto do dia do meu nome. Quando pensei que uma partida não me faria mal.
Ninguém o interrompeu. Sabiam que ele estava ganhando tempo, apresentando os detalhes como deveriam ser apresentados. Caso ele cometesse a indiscrição de correr com a história ou deixar de fora fatos importantes, Sr. Óculos o lembraria, com educação, a sua predileção por detalhes. Mas Sr. Verde não esqueceu de detalhe algum.
- Uma partida não me faria mal, mas eu tinha feito mal em não trazer um taco de golfe comigo. Naquele momento travei e pensei que não haveria solução, a não ser voltar outro dia. Quando, de maneira abrupta, a oportunidade surgiu a frente. Encontrei um taco novo de golfe. Reluzente, elegante e , só pelo olhar, eu já sabia, perfeitamente balanceado.
Todos eles trancaram a respiração naquele momento.
- Me aproximei dele – continuou Sr. Verde, – E a princípio tive medo de tocá-lo. Tive medo que já fosse de outro e que não poderia ser por acaso que estaria ali, perdido, pronto para mim.
- Todos eles querem ser jogados! – Esbravejou Sr. Mochila, perdendo a paciência. Ele sabia que a história se repetia dolorosamente em vários pontos que já eram familiares a ele.
- E depois? – Incentivou Sr. Passos de Dança, sem concordar com Sr. Mochila desta vez. – O que aconteceu?
- Eu joguei.
A frase veio rápida, seca e direta, pegando todos de surpresa.
- O quê? – Disseram Sr. Óculos e Sr. ? em uníssono.
- Eu joguei, e fiz o melhor jogo da minha vida.
Sr. ?, com uma pantomima, agarrou-se a sua garrafa especial.
- Eu sabia! – Ele tentava dizer, em meio a risadas agudas e estridentes que todos adoravam ouvir.
O som da risada de Sr. ? encheu o lugar, enquanto Sr. Nanquim, em sua cadeira, balançava-se para frente e para trás, pensando no que acabara de ouvir.
- Direto no buraco, direto. – Murmurava ele, em profunda admiração.
Até mesmo Sr. Mochila, exaltado minutos antes, levantava-se para dar os parabéns para o Sr. Verde.
Servindo rapidamente em copos de marfim gravados com dragões, espadas e escudos, Sr. ? despejava a bebida clara em cada copo. Sem medir exatamente o tamanho da dose, ele só queria terminar o mais rápido possível. quando acabou, virou-se para todos, e com um sorriso matreiro nos lábios disse:
- Hidromel.
Todos beberam.
- Ainda não acabei – Disse Sr. Verde, surpreendendo a todos mais uma vez.
- O quê? – Exaltou-se também Sr. Óculos. – Não me diga que o final não é este, que ainda tem mais. Porque quando vem de si, já sabemos, que talvez coisa boa não será; infelizmente, perturbadoramente, com uma precisão que me faz temer, eu acho que já estou a suspeitar. O que aconteceu agora?
- Quando é o próximo jogo? – Disparou Sr. Nanquim em um fôlego só. – Só me diga que teremos outro jogo.
O silêncio foi ouvido naquela sala pela primeira vez. Se arrastando por todos os cantos, ele foi crescendo. Tomando forma, ele se assentava no semblante preocupado de todos os Srs.
Com um suspiro, Sr. Verde quebrou o silêncio:
- Foi o último.
E, antes que qualquer um pudesse interrompê-lo mais uma vez, ele prosseguiu rapidamente.
- Não guardo do taco nada mais do que uma imagem no campo. Não sei tipo, origem ou criador. Só guardo a lembrança.
Sr. Mochila, feliz pela história ter tido um ponto diferente, de sucesso e alegria, ao mesmo tempo parecia abatido, como se soubesse que deveria ter confiado nos seus instintos. A história, que tinha disparado seus alarmes anteriormente, tinha, de fato, alguns pontos em comum com as outras histórias. Com uma piscadela, indicou para Sr. Óculos que, desta vez, ele deveria dizer as palavras.
- Eu sou o Sr. Verde – Recitou Sr. Óculos, como se imitasse o colega. – Obrigado pela partida. E você, é?
Todos viraram suas doses de hidromel e pousaram os copos, quase que ao mesmo tempo, com um baque na mesa, enquanto lá fora, ao longe, o rugido de foguetes tomava o céu.

#CSUN2015 – Sistemas de navegação indoor para cegos

Dentre as várias dificuldades que uma pessoa cega tem no dia a dia, andar do ponto A até o ponto B pode ser uma delas. Quando o caminho é desconhecido ou muito complexo, é frequente termos a necessidade de pedirmos ajuda para alguém na rua ou em algum estabelecimento por alguma informação para nos orientarmos. A verdade que tudo isso é uma falha do ambiente em si; Se os cruzamentos da cidade onde moro, por exemplo, tivessem semáforos sonoros, eu não precisaria pedir para alguém se eu posso atravessar ou não. Nem sempre temos essa ajuda disponível, mas eu sempre tenho a necessidade de atravessar aquela rua. E com gente ou sem gente, damos um jeito.
Pode não parecer, mas aprender a se orientar na rua é mais fácil do que aprender a andar dentro de um shopping ou universidade sozinho. Isso se dá porque as ruas seguem uma espécie de padrão que tem como guardar na cabeça. é fácil saber quando se chega em uma esquina pelo barulho dos carros que se movimentam do meu lado. É razoavelmente fácil saber quando chegamos na rua, pelo piso ser diferente e por causa do meio fio. Deste modo o mapa mental é cheio de detalhes táteis e sonoros que me permite saber em que rua estou, para onde posso ir e como posso ir. Isso não acontece em um shopping ou um hotel, porque as coisas são muito iguais. O piso é sempre igual, os sinais sonoros são mínimos, e pra piorar, sempre tem vários corredores abertos e bem espaçosos que a desorientação está a só um passo de distância.
Na #CSUN2015 para chegar até o meu quarto, eu contava o número de portas
até ele. Funcionava, mas só para chegar no quarto. A recepção era um grande espaço aberto que tinha quase nenhum ponto de orientação que dava para usar para encontrar o que você queria. Minha estratégia era andar pelo meio dela, encontrar a porta de saída e dela fazer uma linha reta até o balcão da recepção. Gambiarra? Sim, mas como antes, funcionava.
Durante a conferência tive a chance de conhecer diferentes soluções de navegação indoor para cegos. Estamos acostumados com sistemas de navegação outdoor (GPS), que ajudam muito na hora de andar de carro ou a pé. Sistemas de navegação indoor são mais complicados porque a precisão necessária é maior. Os pequenos erros do GPS em um lugar aberto podem ser gigantescos dentro de um lugar fechado. duas portas que se encontram a poucos metros de distância poderiam ser confundidas, causando uma instrução de direção errada.

Click And Go

A Click And Go é uma empresa que se especializa em criar mapas indoor para que pessoas cegas ou baixa visão possam se locomover dentro de ambientes fechados, tal como estações de metrô ou shoppings. Eles criam mapas descritivos que contém rotas de um ponto de partida até um destino dentro do ambiente. Tais rotas sempre levam em consideração pontos de referência que uma pessoa cega possa encontrar facilmente, tal como escadas, portas e corredores. Informações sobre distâncias também estão presentes de modo que a pessoa possa construir um mapa mental de como as coisas se organizam no espaço a sua volta.
Exemplos de descrições de rotas neste link.
Como as rotas incluem apenas descrições textuais estáticas, um problema que pode surgir é a pessoa saber se, de fato, encontra-se no ponto de referência descrito no texto. Uma solução proposta pela empresa, que no tempo da apresentação ainda não tinha sido implantado, é o uso de Ibeacons, que permitem indicar para smartphones a posição do usuário dentro de um ambiente fechado. Para isso acontecer, um problema de custo existe porque seria necessário espalhar vários Ibeacons pelo ambiente que se quer mapear.

Vantagens

  • As rotas estão disponíveis no site em texto e áudio, podem ser baixadas em um app para celular ou podem ser lidas através de um serviço por telefone.
  • Permite que a pessoa leia a descrição do lugar que ela irá visitar antes de ir, assim se preparando melhor.
  • Facilidade no uso – não é preciso dominar nenhuma tecnologia profundamente para poder usar esse tipo de serviço.

Desvantagens

  • Baixa escalabilidade – Para uma rota existir, uma pessoa precisa fazê-la primeiro, descrever a rota, passar por um processo de validação para ser disponibilizada.
  • Custo – o custo para mapear as rotas de um estabelecimento é muito caro e necessita de investimento de cada lugar que deseje ter aquele lugar adaptado.

Mapas táteis impressos com impressoras 3d

Uma pesquisa experimental que pude observar na conferência foi a criação de mapas táteis usando impressoras 3d. O grupo, até o momento da conferência, não havia publicado nenhum artigo sobre o assunto, mas já tinha um protótipo bem interessante para mostrar.
O mapa tinha como objetivo representar as instalações de uma escola infantil, ser leve e durável. Crianças cegas que estudam naquela escola poderiam ter uma noção de como era a escola inteira apenas tocando no mapa. Detalhes que achei muito interessantes foi o sistema de legendas que foi criado:
Ao lado do mapa, uma série de cruzes, bolinhas e outras formas geométricas com diferentes relevos tinham uma palavra escrita em braille, indicando o que representavam. Deste modo, era fácil e rápido com uma mão tatear o mapa, e com a outra seguir a lista de legendas para identificar o que era cada coisa.
Em pouco tempo fui capaz de entender como corredores se ligavam, onde era o estacionamento e a enfermaria, por exemplo, o que ajudaria muito se fosse a primeira vez que eu estivesse indo naquele lugar.
Me veio logo na cabeça que, de mesmo modo que devemos ter standards para mapas normais, deveríamos ter algo semelhante para mapas táteis. Depois de pouco tempo já fui capaz de identificar a maioria das coisas no mapa sem recorrer as legendas. Se os mapas táteis seguirem um mesmo padrão, no futuro poderíamos ter uma interação muito agradável com eles.

Vantagens

  • O uso é o mais simples possível, ideal para uso por crianças. Por ser durável e leve, crianças podem carregá-lo e usá-lo frequentemente sem problemas.
  • Por ser impresso por uma impressora 3d, é possível compartilhar os mapas, o qual poderia ser impresso em outro lugar.

Desvantagens

  • Enquanto o preço das impressoras 3d não diminuir um pouco, esse tipo de alternativa ainda continua um pouco cara. Por mais que o material não seja tão caro, o aparelho e a mão de obra(as pessoas que precisariam desenhar o mapa),contribuiriam para aumentar o preço final
  • Tal como qualquer outro mapa, este é estático. Se uma criança cega perder-se, pode ser difícil saber identificar algum ponto de interesse por perto. Pense na facilidade que um gps tem sobre um mapa de papel, é a mesma coisa.

Navatar

Navatar não foi apresentado na conferência, mas como acho a idéia desse sistema incrível, vale a pena compartilhar nesse post.
O sistema funciona junto de um Google Gllass, e dá instruções em tempo real para o usuário de onde ele tem que virar, por meio de pontos de referência.

Link para o vídeo no youtubbe

Como o gps não oferece uma localização tão precisa, especialmente em ambientes indoor, para localizar o usuário no espaço é usada uma técnica chamada dead-reckoning localization (localização estimada), que estima a localização através de uma localização anterior, e levando em conta posteriormente a velocidade, curso e o tempo. A navegação estimada é facilmente suscetível a erros, e os erros são acumulativos (veja o link para mais informações), o que poderia ser um problema. Tais erros são mitigados pedindo para que o usuário confirme para o sistema a medida que alcançar os pontos de referência predeterminados, tal como, pedir pela próxima instrução apenas quando chegar na porta da instrução anterior ou quando chegar na intersecção dos corredores.
Infelizmente, existem poucas informações sobre o Navatar ainda, mas dentre todos, é o que vejo mais potencial.

Vantagens

  • Menor custo – este sistema pode beneficiar não apenas pessoas cegas mas qualquer um que queira andar dentro de um ambiente novo, tal como shopping ou universidade, e ter informações em tempo real de onde encontram-se as coisas. Com este número grande de potenciais usuários, o custo é distribuído e diminuído.
  • Dinâmico – oferece maneiras de confirmar em tempo real a posição e a distância de pontos de interesse e pontos de referência. Além disso, não necessita uma memorização do ambiente tal como um mapa, visto que é em tempo real.

Desvantagens

  • Dificuldade – é um problema computacional difícil, especialmente a parte da criação de um algoritmo que permita minimizar os erros de distância e oferecer a maior taxa de acerto possível.
  • Dificuldade no uso – embora o uso provavelmente não seja tão complicado, vai demorar um tempo até que cheguemos no ponto onde várias pessoas possuam um wearable. O custo desse tipo de aparelho pode ser caro, o que torna a questão do custo tanto uma vantagem quanto uma desvantagem nesta lista.

Conclusão

Embora tenhamos um bom tempo até chegarmos em um ponto no mundo, onde pessoas cegas consigam andar livremente e sem problemas em qualquer tipo de ambiente, é bom saber e acompanhar que progressos estão sendo feitos. Na maioria das soluções propostas, a escalabilidade apresenta-se sempre como o maior desafio. Embora soluções de qualidade já possam ser oferecidas, elas ou custam muito caro ou levam muito tempo para serem implementadas, o que dificulta sua adoção em todos os lugares.

#CSUN2015 – A partida

Estou sentado em uma poltrona apertada em um avião, sobrevoando algum ponto entre Dallas e Miami.
Não faço idéia que horas são porque meu celular marca o horário da Califórnia, onde certamente o fuso horário já é outro.
Estou voltando da #CSUN2015, uma conferência sobre tecnologia assistiva para pessoas com deficiência.

Esta foi a primeira vez que participei desta conferência. Se, por um lado, não me lembro de ter ficado tão cansado tanto quanto estou agora, por outro não me lembro também de quando tive tantas conversas produtivas e ter a chance de conhecer tanta gente que luta para transformar o mundo melhor através da tecnologia.

Inicialmente, eu gostaria de ter escrito um post por dia contando como estava sendo a conferência. Esse plano foi totalmente frustrado,
quando notei que eu não tinha tempo para fazer quase nada. Os dias foram repletos de palestras, reuniões e eventos sociais, que tomavam todo o meu tempo de uma forma ou de outra.

Segunda-feira, dia dois de março, tomamos, ou melhor dizendo, tomei o avião rumo aos Estados Unidos. A grande diferença dessa viagem foi que
resolvi não levar meu cão guia, Timmy. Desde que cheguei no aeroporto senti um misto de estranheza e de preocupação, afinal, já fazia um bom tempo que eu não dependia da bengala.
Os motivos pelos quais ele não me acompanhou desta vez foram dois: a necessidade de preencher uma série de papelada com um veterinário e conseguir um carimbo do ministério da agricultura e o tempo de viagem, somando os três voos e o tempo de conexão somavam 24 horas, com pequenos intervalos entre os voos, o que poderia dificultar levá-lo para fazer xixi fora do aeroporto. Minha previsão foi acertada, porque em dois voos estivemos atrasados e de fato eu não teria tempo para levá-lo.

Gostaria de me estender um pouco sobre este assunto, viajar sozinho e ser cego ao mesmo tempo. Pode parecer complicado a primeira vista, mas a verdade que é perfeitamente possível, seja com cão guia ou com bengala. Imagino que a maioria das pessoas que não enxergam façam como eu, – preparam-se com o máximo de informação disponível sobre o trajeto, informações de contato de pessoas próximas e com os pontos mais importantes, tais como endereço do hotel. Isso não significa que não nos sintamos ansiosos e até mesmo preocupados as vezes com as viagens, tal como todo mundo se sente. A maior parte das minhas preocupações vem do fato de eu não conseguir prever todo o caminho, encontrar coisas que talvez eu não consiga resolver na hora, tal como me perder em algum lugar e demorar muito para me achar, me atrasando para algo importante. A maioria das minhas preocupações sempre são infundadas, visto que nunca aconteceu nada de sério comigo, e, quando algo fora do previsto acontece, sempre fui capaz de dar um jeito. Isso que digo pode parecer óbvio para alguns, bobo para outros e até mesmo redundante. Mas o objetivo é que alguém que não enxergue, se um dia ler esse texto, não se preocupe tanto assim com as coisas desconhecidas que possam ocorrer em uma viagem. É tudo uma questão de improviso e conversa, e tudo se resolve.

Logo que sentei no avião, já coloquei o meu inseparável par de fones de ouvido com cancelamento de ruído. É difícil imaginar fazer uma viagem de avião sem um desses, a diferença é mais do que notável desde o primeiro instante que você coloca um. O barulho some completamente!

Mas não tive muito tempo para aproveitar meus fones. Duas batidas no meu braço, e uma voz conhecida dizendo – Lucas! – Logo me interromperam. Não foi uma interrupção ruim, era apenas uma das primeiras coincidências desta viagem, um dos meus colegas de trabalho estava pegando o mesmo voo que eu e nenhum de nós sabia disso até aquele momento.

O voo foi tranquilo e a conexão também. Acabei me separando do meu colega naquele momento, porque fui para um destino diferente do dele. Ali, algo que aconteceu comigo quatro anos atrás se repetiu, queriam me levar de cadeira de rodas.

Eu realmente não entendo essa dos americanos de sempre quererem levar cego de cadeira de rodas quando vão buscá-los no avião. Chegaram ao ponto, em certas conexões que fiz, a insistirem que eu sentasse na cadeira, porque tornaria o trabalho mais fácil. Eu respondi que sendo fácil ou não, eu iria andando. E foi o que fiz.

A teoria de um colega meu é que dada a cultura do processo dos EUA, eles estão se prevenindo de qualquer eventualidade que possa ocorrer comigo. Caso eu caia, me machuque de alguma forma, eles estariam protegidos contra isso. Outro colega sugere que eles estariam oferecendo isso para pessoas cegas que possam ter mais de um problema além da cegueira, o que é compreensível, mas que se torna absurdamente bizarro de ser forçado dessa maneira.

Não importa. Eu, e talvez minha teimosia, fomos andando e pegando os aviões até chegar em San Diego, cidade da conferência. Pouco antes de entrar na última conexão, uma pessoa bate no meu ombro e pergunta se eu estaria indo para a CSUN. Respondo que sim, e naquele momento já fiz outro amigo, que fomos conversando o próximo voo inteiro sobre acessibilidade e coisas da vida. De fato, você conhece gente onde menos espera.

Cheguei no hotel tranquilamente, na terça-feira a noite, mais ou menos 24 horas depois de ter saído de casa no dia anterior. foi cansativo, mas só estava começando. No dia seguinte, a coisa real iria começar.

#CSUN2015, aí vou eu!

Em alguns instantes vou embarcar em um avião rumo a Califórnia. O destino desta vez, é um que a muito tempo eu gostaria de visitar. Vou participar da #CSUN2015, uma das mais importantes conferências sobre acessibilidade, tecnologia assistiva e inovações para pessoas com deficiência visual.

Estou animado para caramba porque desde a faculdade leio sobre a conferência, acompanho os lançamentos que são feitos e o impacto que ela tem. Desta vez, ser capaz de participar pessoalmente vai ser ótimo.

Me acompanhem no Twitter e aqui no blog, que vou postar o que encontrar por lá.

Este post é curto, porque preciso partir. Stay tuned!

Um dia de sorte

Ao sair de casa, espera-se as vezes um pouco mais, as vezes um pouco menos, que algo incrível aconteça. Normalmente a expectativa é baixa se estamos indo para o trabalho, escola ou só encontrar os amigos. Nada de incrível, só o comum. Melhor assim, que fique na nossa zona de conforto. Mas quando saímos para algum lugar desconhecido, principalmente festas, a expectativa aumenta. Queremos que algo diferente ocorra, queremos conhecer pessoas novas, e, no caso de Roger, ele queria tudo isso. E ganhar dinheiro.

Quem arquiteta um plano por muito tempo, passa a respeitar muito mais o problema que está a vista. Ao analisar o problema em todos os seus detalhes, é quase possível criar um laço de intimidade com ele. Tramar um golpe é preciso um coração frio, porque o perigo de sentir pena do pobre coitado que será a vítima não está muito distante. Era nisso que Philip pensava, enquanto caminhava com as mãos nos bolsos do jeans surrado que ele usava. A parte dele já estava pronta. O seu maior plano, a sua maior jogada já havia sido composta, e outros só precisariam orquestrar.

Roger era um cara de sorte. Sua família tinha muito dinheiro. Era dinheiro o bastante para dar uma vida confortável, mas não o bastante para pô-lo a onde quisesse. Para isso ele ainda precisaria lutar muito. O objetivo ainda parecia muito distante. Infelizmente ele não era um gênio, nem mesmo mediano. Um pouco lerdo, diriam alguns. A verdade que era apenas um pouco apático as dificuldades da vida, por não tê-las experienciado quando mais novo. A ambição, a responsável por mover muitos, começou a manifestar-se nele tarde demais. E tardiamente na vida que ele tentava ir atrás dos desafios, pouco a pouco, ele tentava ser bom nas coisas que lhe interessavam.

Praguejando, Philip andava na rua em direção da jogatina. Os sinais claros da ansiedade eram visíveis nele. A todo tempo, procurava algo para se distrair, mas acabava voltando sempre ao plano que havia bolado. Iria funcionar? Era a sua pergunta de um milhão de dólares. Philip não é o que poderíamos chamar de “um cara de sorte”. Criado pelos avós, sempre teve a impressão que era indesejado na casa. Deixou tudo para trás e foi morar sozinho aos 16 anos. Trabalhava durante o dia e pensava muito durante a noite. Foi a melhor coisa que ele fez. Pensando chegou a conclusão que estudando teria um pouco mais de chance. E foi o que fez, até conseguir um diploma em um curso técnico de eletrônica. Mas isso não lhe bastava. Ele sempre pensava mais e mais, mas pensava principalmente como poderia tirar dos outros para ter aquilo que ele não tinha.

Roger entrou no cassino sentindo-se estranhamente confiante. Não perdeu tempo com nenhuma distração e aproximou-se da mesa onde se realizaria o tão aguardado jogo de poker. Ele já havia avançado através do torneio informal, e estava próximo do prêmio final. Talvez confiante não seja a palavra certa. Ele se sentia vazio, concentrado em um único ponto.

Philip chegou na construção abandonada onde, desde muito tempo, encontrava-se com seus antigos amigos, da época que ainda morava sozinho nos fundos do trabalho, para jogar truco. Eles subiam até o terceiro andar, e, por horas a fio, bebiam e jogavam. Essa era a distração de Philip, enquanto ele esperava o resultado do seu plano.

O torneio deu início. Com um sorriso zombeteiro no rosto, o homem sentado logo a frente de Roger deixou de ser mais um participante do torneio para virar um oponente. Desde o primeiro momento que Roger pôs os olhos nele, sentiu que havia algo errado. Sentimento que, só aumentava a cada rodada do jogo. Mas o jogo prosseguia, e o que aumentava, eram as pilhas de fichas de Roger.

Philip se envolvia cada vez mais com sua jogatina para fazer o tempo passar mais rápido. Bebendo mais e gritando o mais alto que podia, nem ele tinha mais certeza que era a melhor maneira de fazer passar o tempo.
- Truco! – Gritou alguém da outra dupla.
- Bora! – Gritou o parceiro de Philip, balançando a carta na mão.
O primeiro a gritar, com um sorriso no rosto, mostrou um 3 de espadas.
- Manilha! É espada!
- Droga! – Disse o parceiro de Philip, abaixando a carta.
Naquele momento, a ansiedade nele explodiu. ele arriscou tudo.
- Seis!
E com o seu grito, o chão pareceu tremer.
O oponente de Roger começou a se sentir incomodado. Toda a confiança que ele parecia ter no começo do jogo se fora. Ele passava da água ao vinho, e deixava transparecer, cada vez mais facilmente, qual era o nível das suas cartas para aquela rodada. O que só o prejudicava. E, por mais que tentasse, ele não conseguia esconder. O nervosismo era visível.
Quando, ao iniciarem mais uma rodada, o chão tremeu.
Quando Philip começou a refletir porque o chão estava tremendo, a construção já havia caído. Os andares foram caindo como se fossem todos desconectados, deslisando um para longe dos outros como se estivessem sido apenas empilhados por um gigante. Todos foram para o lado, caindo, felizmente, sobre um descampado. Alguns se chocavam contra os outros e produziam pedaços de alvenaria que, ao se despedaçarem, faziam uma poeira subir. Outros andares, ao serem empurrados pelos mais de cima, rolavam para o lado. Não pode-se dizer que os andares eram unidades, porque quanto mais se mexiam em sua queda, mais fragmentados se tornavam. Mas, para um observador externo, a impressão que blocos caiam e rolavam era algo fácil de perceber.
- Matheus está morto! – Gritava o parceiro de jogatina de Philip – Ele foi… atravessado por uma… – Não conseguiu terminar de falar, enquanto caia em prantos.
Philip se levantou ileso. Assustado, deu dois passos e encontrou seus outros dois amigos, ainda vivos, puxando um terceiro morto, de baixo de uma montanha de escombros.
Pouco depois de terem conseguido recuperar seu amigo, uma multidão chegou. Eram de todos os tipos, mas, eram principalmente do tipo que estavam no Cassino.
Depois do chão tremer, Roger e os outros ouviram um barulho enorme de demolição. A concentração foi embora em um segundo. O jogo foi parado e todos se levantaram, em direção da saída, para ver o que havia acontecido. andaram menos de 100 metros e logo encontraram, ou melhor dizendo, deixaram de encontrar a construção que estava lá antes.
Philip olhou para a multidão que se aproximava com uma cara assustada. A preocupação e o choque eram visíveis nele. Quando, ao ver o oponente de Roger, um leve sorrisou surgiu em seu rosto e ele se dirigiu ao outro homem:
- E então? Funcionou?
- Quase – começou ele, – o tal de Roger, mesmo eu sabendo em algumas rodadas quais eram suas cartas, sabia quando eu não tinha nada. Ele sabia quando eu blefava. ele estava na frente…. acho que vai ganhar.
- Puta que pariu! – Irritou-se Philip – eu deixei tudo acertado para você poder saber as cartas dos outros e ganhar fácil, e você não consegue!
Os dois pararam de falar, porque Roger estava logo ao lado.
- Você está bem? O que aconteceu aqui na verdade?
Philip, pensou por um segundo em agredi-lo, mas reconheceu. Reconheceu que só alguém muito bom conseguiria vencer um jogo que estava sendo trapaceado por outra pessoa todo o tempo.
- Você é bom. – Disse Philip, se afastando junto de seu comparsa.
roger, sem entender, apenas olhou os dois se distanciarem. Ao abaixar os olhos, viu uma carta no chão virada para baixo, e a pegou.
Enquanto observava uma ambulância e mais pessoas chegarem, olhava para as costas dos dois que já estavam longe, e disse baixinho:
- E você é um cara de sorte. –
Virou-se, soltou a carta que saiu voando. E, como se estivesse seguindo Philip, o 4 de ouros foi se arrastando pela rua.

An open letter to Blizzard: please make Hearthstone accessible to the blind

Dear gamer friends at Blizzard,

My name is Lucas, I am from Brazil, I love card games and I am also blind. And give me just a few paragraphs to show how all this stuff fit together and where you guys come in.

I have already heard a lot about this online card game, Hearthstone, that you guys develop. My friends play it, talk about it all the time and this just increased my interest.

I really want to be able to play this game with them, but it is not accessible. When I say that it is not accessible, I mean that there is no way that I can access the game alone on an iPad or in my laptop, devices that I use regularly.
So, I am writing this letter to ask you guys to make hearthstone accessible to screen readers, so that the blind community could play this game with our sighted colleagues. When I say a community, I really mean that. We have a huge number of blind people that love games, as much as you guys do, who would start playing this game as soon as it gets accessible.
When I was younger, I used to play magic the gathering. I bought several deck protectors for my cards, and in each of them, I wrote in braille a code that identified the card. I memorized that code with the card’s details and played with my friends. We had so much fun, and I am pretty sure that we could make this happen again.
Maybe you guys are thinking: ok, but how do we do that?
The reason for me to ask such a thing, it is because, making hearthstone accessible is not hard. In fact, it is one of the easiest kind of games to adapt. What we need is just a tts that read the menus, shortcuts to operate the game just using the keyboard and key bindings to describe the state of the game.
And one last thing: I am also a programmer. And, in case you guys decide to consider this, I can help to suggest possible solutions to make this work.
In my work, we have the possibility to take 20% projects to work on something that we really love. I hope that in your company the programmers can do the same. And I hope even more, that a programmer reads this and decide to follow that rout. Because, if you like that game that you are creating, why not make it available to more people?
Thank you.

De cá para lá, outra e outra vez

As dores nos músculos é fácil explicar onde dói. É simples identificar os pontos, verbalizá-los, e, por fim, dar um jeito de remediar. Não é tão simples quando se trata da confusão que é a mente. É nisso que ele pensava enquanto desligava o telefone e explicava a resposta, que a princípio parecia ser algo simples, de como se sentia. Por um lado, se sentia bem, porque estava quase no fim. Por outro, se sentia incomodado, porque havia se mudado novamente. Novamente, a mudança era o problema.
Por uma série de fatores, ele teve que abandonar o apartamento anterior. O novo, não tão grande quanto antes, era melhor localizado e mais novo. Porém menor. E o fato de ser menor parecia algo muito grande nas suas preocupações.
Ele pôs mais uma caixa no chão, puxou a faca e cortou a fita durex que a prendia fechada. Tirou de dentro outra parte das louças e tentou lembrar da lógica que fez ele colocar taças de vinho junto de patinhos de borracha. Mas logo se esqueceu disso, porque caiu em reflexão, e pensou, seriamente, porque havia comprado os patinhos a final de contas, se nem mesmo tinha uma banheira para pô-los a boiar.
Mudar-se é um processo de análise de si mesmo, ele concluía pouco a pouco. É um momento para deixar não só a casa para trás, mas sim muito das suas coisas. Muito do que se acumula não é intencional, mas sim uma consequência da resistência que temos a nos desapegar das coisas. Não que nos apegarmos seja algo ruim, disso ele tinha certeza. Mas é que apegar-se ao que quer que seja trás a noção de familiaridade, e, de um modo ou de outro, queremos nos sentir parte de onde estamos.
O telefone tocou mais uma vez, mas dessa vez foi ignorado. “Como você está?” parecia algo muito complexo para ser respondido. Parecia uma pergunta muito familiar, com uma resposta já apegada a si mesmo. Já que estava se mudando, queria uma resposta nova, que ainda não tinha endereço.
Outra caixa, outra lembrança. Aquela continha os livros, que já nem mais possuíam lugar porque a estante era embutida no último apartamento e acabou ficando por lá. As vezes deixa-se uma coisa para trás e outras tantas insistem em acompanhá-la no seu caminho. Os livros ficaram na caixa, porque não tinham mais lugar no novo espaço. No entanto, o novo espaço tinha um barzinho no canto da sala, e as velhas garrafas que ficavam no armário tiveram a sua vez. As garrafas substituíram os livros na decoração, o sofá novo superou o antigo, o tamanho do novo era menor que o velho, e, a satisfação, não sabia se as garrafas eram melhores que os livros ou se o barzinho era tão útil quanto a estante; A satisfação só sabia que levaria um tempo para decidir-se, se estava de acordo ou não.
A campainha tocou. Infelizmente, seja lá quem fosse, não poderia ser ignorado como o telefone, porque tocou duas vezes para mostrar que não tinha muito tempo a esperar.
- Tenho uma notícia para o senhor, – começou dizendo a moça. – Como você não assinou o contrato ainda, o proprietário tem o direito de cancelar. E foi isso que ele fez. Você vai ter que sair.
Sem tocar em nada, ele saiu. Simplesmente desceu as escadas, e ao saldar o porteiro, ouviu:
- Seja bem-vindo, senhor. Você acabou de mudar-se, não?
- Mudei? Ainda não. Ainda acho que sou o mesmo, na minha última casa. Só estou de passagem. E, como passageiro, já embarquei para a próxima.
No fim, quem muda é o tempo. O costume vem quando o tempo cansou de se mudar.

Em terra de cego, que tamanho deve ser a TV?

Como já comentei anteriormente, estou morando sozinho novamente desde janeiro. As coisas vão se ajeitando, seja por costume, imposição, esforço ou paciência. O meu apartamento, que tem alguns sérios problemas, não vai se resolver porque a dona dele não está muito disposta a gastar, o que me faz conviver com algumas coisas estranhas. Uma delas são as partes do piso que estão completamente estragadas. Por enquanto são apenas falhas no piso e não está tão ruim assim porque Coloquei tapetes nas partes mais críticas que resolve por hora. Mas imagina se um dia eu tiver que mandar os tapetes para serem lavados e as falhas do piso resolvem fazer um protesto através de uma petição para poderem tornarem-se buracos? Eu vou derrubar algo no chão, o cachorro vai vir correndo, dar um carrinho e lá se vai pro apartamento do vizinho debaixo. E, lá de baixo, vai vir os gritos do vizinho, que vai usar a vassoura não para bater no teto, mas sim como dardo de arremesso pelos buracos do meu piso. Então terei que me armar também, jogar a louça suja contra ele. Ele escolheu armas de limpeza, mas na verdade querendo jogar sujo, devolvo na mesma moeda. E no meio, os buracos se arrependendo da decisão estúpida que foi começar aquele protesto.
Enquanto os problemas no piso não são inimigos de ninguém, me vem a cabeça que com certeza eles seriam amigos da minha mãe. Eu estava sentado aqui no computador esses dias descalço. Quando, ao me levantar, uma ferpa de uma das tábuas do piso entrou no meu pé. Desde aquele dia eu nunca mais andei descalço só de meia. Minha mãe teria dado um abraço no piso por ele conseguir ter feito esse acordo de cavalheiros comigo.
Como eu ia dizendo, vou ajeitando o que dá por aqui. Já tenho uma decoração básica em cima da mesa e móveis bem bacanas. Mas ao receber visitas, me veio a dúvida: será que eu deveria ter uma TV?
Não é que cego não assista TV. Eu não assisto. É diferente. E sim, é assistir, não vamos ficar trocando o verbo “ouvir TV”, isso é muito babaca. Eu não comprei uma TV porque os filmes que assisto na Netflix da para ser no computador mesmo, então isso já me basta. Mas recebo visitas e com uma TV em casa, acho que a estadia delas seria melhor.
Então me decidi por comprar uma TV. Não precisa ser hoje, semana que vem ou ainda esse ano. Vai ser quando eu responder a questão que é o título desse post.
Se eu comprar uma TV pequena, que é a coisa financeiramente lógica a se fazer, estarei prejudicando as pessoas que enxergam. Se comprar uma grande, estarei gastando mais e possivelmente agradando mais as visitas.
Acho que uma maneira de analisar essa situação, é pensar como o mundo decide as coisas quando eu estou do lado da visita. O cinema não deixa eu pagar meia, e cada vez mais o preço tem aumentado porque a tela fica maior ou tem 3d. OK, através dessa análise eu deveria comprar uma TV de 14 polegadas, daquelas de tubo que você roda o pininho pra trocar de canal. Não preciso dizer que minha casa, com uma TV dessas, pareceria um recanto de hipsters.
Se fizermos algo completamente inverso e eu comprar uma de, 40 polegadas, por exemplo, vai ser tipo o meu atestado da síndrome da esteira elétrica. Se você não sabe o que é a síndrome da esteira elétrica, é aquela sensação não muito agradável que começa a tomar conta do seu ser quando seus pais dizem que vão comprar uma esteira elétrica e que, se concretiza de fato quando eles compram uma. No começo todo mundo corre, e a medida que o tempo passa, ninguém mais aguenta aquela porcaria. Até que chega o ponto que querem guardá-la em algum lugar e sobra o seu quarto. No final de dois meses, você está dormindo no sofá porque a esteira elétrica precisa ficar no seu quarto para não atrapalhar ninguém. Em resumo, é algo caro, grande e que ninguém usa. A síndrome é fatal.
Enquanto o tempo passa e eu debato aqui com meu cachorro na esperança que ele venha com uma resposta boa, a TV aguarda lá na loja. Eu posso garantir que ele sugeriu em uma dessas conversas pegar uma de tamanho médio, mas logo repostei dizendo o que que é médio pra você?
Quer saber, acho que vou comprar só um home theater mesmo.

O amigo do Bocelli

A gente reclama bastante da realidade. Sejamos honestos, ela é bem sem graça. Não tem robô gigante, não tem orcs, não tem teletransporte e não tem hadouken. Mas se tem uma coisa que a realidade tem, e muito, são histórias bizarras. Já diria aquela frase “A ficção científica é o único lugar que as coisas precisam fazer sentido”. E é só lá mesmo, porque na realidade, tem só a falta do sentido.
Eu não inventei essa história. Gostaria de ter tido, mas ainda não estou nesse nível. Um dia eu voltava da minha aula de alemão com meu amigo Cristopher que havia passado por lá para me buscar. A gente estava indo para casa de algum de nós fazer um trabalho da faculdade, quando no meio do caminho, encontramos ele, Marcelo.
Ele já começou trancando no nosso caminho na calçada e chamando a atenção do meu cão guia.
- Ei! cão! aqui ó, aqui! – começou ele, estralando os dedos. – Vem, vem? isso, vem!
Logo respondemos que aquilo não poderia ser feito, que o cão estava trabalhando e que não deveria ser distraído. A resposta nos surpreendeu mais do que esperávamos:
- Fiquem tranquilos! – Dizia o marcelo mais animado a cada momento. Eu sou veterinário e sei o que estou fazendo.
E aí começou a história toda. Nós estávamos prestes a conhecer Marcelo, um az do conhecimento humano.
- Meu nome é Marcelo. Moro no prédio aqui perto, vocês podem levar o cão para brincar lá em casa qualquer dia desses. Ta uma bagunça, mas você não vai ver, né? A gente poderia assistir um dvd que eu trouxe de Israel.
Eu já nem sabia mais o que estava acontecendo. Marcelo, na calçada, conversava com a gente. Timmy sentado do meu lado e Cristopher, imagino, com uma cara de bunda total logo atrás, porque não abriu a boca uma vez só para repostar o que o cara dizia. Não o culpo, eu mal sabia o que responder.
Passeamos pela vida do cara naquele momento. Aparentemente ele já havia ido para Israel em uma peregrinação qualquer e lá viu alguém curar os olhos de um cego com algum tipo de oração.
- Eu tive um amigo cego uma vez. Cantei com ele. Era o Bocelli, vocês conhecem?

E a conversa seguia, seguia e seguia. A gente não conseguia escapar dele de jeito nenhum. Quando pensei que a história estava acabando ele diz:
- Vamos fazer uma oração juntos para você sentir as vibrações.
Dedinho apoiado em dedinho no ar, ele me fez repetir várias palavras. Até hoje não sei se era latin ou italiano. Uma mistura dos dois, mas mais provavelmente sendo nada. Juro que esperava que a gente fosse pedir uma macarronada ali mesmo porque o nosso sotaque era impecável.
Então, tão subitamente como ele apareceu, ele se foi. Nós ficamos alguns instantes parados, sem saber o que falar, e continuamos o caminho. Depois de uma quadra, eu comecei a dar risada. Como é que esse tipo de maluco sempre vai aparecer querendo me propor alguma cura milagrosa, eu não sei
Mas tudo bem, já estávamos chegando no ponto de ônibus e eu torcia que não estivesse muito cheio. Não estava e quando o ônibus chegou, Cristopher já me disse que teríamos lugar para sentar. Mas como o dia não acaba enquanto não é meia noite, a gente sempre deveria esperar por mais alguma coisa, mas a gente não espera. A gente acredita nas pessoas e acha que tudo vai melhorar.
- É só o que me faltava! – Gritou uma velinha lá do fundo do ônibus, com uma voz bem esganiçada enquanto a gente entrava – Tão trazendo o cachorro pra passear de ônibus agora!

Cinco bandas alemãs que você deveria conhecer

Já que a Alemanha ganhou a copa do mundo, fiz uma lista de 5 bandas alemãs que você deveria conhecer. Sabe como é, muita gente só sabe que na Alemanha se toma cerveja, come-se salsicha e scprechen Deutsch, mas obviamente há muito mais por lá.

1. Santiano:

Santiano é uma banda folk. A temática de piratas é o que mais chama a atenção, e só deixa as coisas melhores. Me incomoda um pouco o fato que bandas brasileiras praticamente só cantam sobre amor, amor, amor (agora um pouco sobre ostentação também). Esta banda tem várias músicas com a temática girando ao redor de viagens ao mar, piratas, lutas, deuses da guerra. É sensacional.
Eles cantam algumas músicas em inglês, que na maioria são covers de músicas tradicionais irlandesas. Vale muito a pena conferir!

2. Faun:

Graças a essa banda, eu conheci Santiano. Faun também é uma banda folk alemã, sendo bem calma. Essa música que estou recomendando acaba sendo uma das mais agitada deles. Além de ser minha música favorita, ela é muito viciante e sempre que volto a escutá-la, escuto várias e várias vezes. Embora as outras músicas sejam bem mais calmas, elas são muito bonitas. É uma chance para ouvir e perder aquela impressão que muita gente tem que alemão, toda vez que se fala, parece que está brigando com alguém.

3. Equilibrium:

Tava demorando! – diriam meus amigos mais próximos. E estava mesmo, nessa lista não poderia faltar alguma banda de “róque paulera”. Equilibrium é uma banda de viking metal que se destaca muito pelo número de instrumentos usados. Eu particularmente acho que o gutural combina pra caramba com o alemão. Tenho essa impressão que o gutural combina bastante com idiomas nórdicos, germânicos e inglês, mas que com francês, português ou espanhol fica muito estranho. Deve ser porque qualquer um que fale um pouco de alemão sabe que é necessário soltar uns guturais para falar algumas coisas…

4. Wise Guys:

Eu sou um grande fã de coisas acapela. Tem que ter uma habilidade, uma que com certeza eu não tenho, para fazer apenas com a boca o som de uma banda inteira. Wise Guys é uma banda que tem várias letras engraçadinhas, sem cair no vulgar e uma qualidade enorme!

5. Cro:

Por essa vocês não esperavam. Cro é uma banda de rap alemã, que por mais estranho que pareça, eu sou fã! Ok, não são todas as músicas que eu gosto, mas essas mais cantadas (e não faladas como quase todo rap), são muito boas. Acho interessante que a pronuncia deles é muito boa e clara e ajuda para praticar o idioma.

Espero que gostem!