Os Tacos de Golfe do Sr. Verde

Foram chegando pouco a pouco. O lugar era familiar e comum para todos. Alguns passavam mais tempo, outros menos. Isso não importava. Era um espaço deles, que, se por ventura vazio algum momento, era impossível estar silencioso. Um lugar cheio de ecos nas paredes. Histórias contadas e recontadas, avisos e conselhos dados e repetidos serviam como os quadros. A mobília não era esplendorosa, mas era robusta. Servia bem o seu propósito. Um pano de fundo. Porque o lugar era deles, mas mais importante que tudo, o lugar não era nada sem eles.
Foram chegando pouco a pouco. Alguns, de fato, haviam saído e voltavam. Outros poucos, apenas sentavam lá, como se nunca tivessem saído.
Sr. Óculos seguia sua rotina lendo o jornal. Eventualmente, discretamente, levantava o rosto e observava. Ouvia e participava. Ele estava sempre ali. Ele tinha criado aquele lugar, e, por mais que não fosse dele, era quase como o lar.
Do outro lado da mesa, não menos presente, Sr. Verde começava uma história. Não importava que ninguém o ouvisse de primeira. Afinal, eles estavam chegando, e, mesmo que atrasados, iriam saber do que se tratava. Sr. ?
também estava lá. Sempre desatento, perdido em pensamento e refletindo. Seu olhar vagava pelas paredes e contemplava o lugar na sua totalidade. Uma sala, não muito grande, dava espaço para uma mesa pesada de madeira ao centro. No canto, um bar e seu balcão exibiam seu conteúdo convidativo para quem quisesse ver. As paredes, cobertas por cortinas grossas e pesadas, absorviam os sons e criavam uma atmosfera de conforto e sofisticação. Mas Sr. ?, ao menor sinal de história, voltou-se para Sr. Verde, e vestiu sua máscara questionadora. Amigável, mas profunda. Carregava o tipo de olhar que sabia que ia conseguir a verdade. Verdade que teria que esperar. Porque eles ainda estavam chegando, e a história alongou-se só para esperar.
Sr. Passos de Dança acomodou-se confortavelmente na cadeira. Não seria de outra maneira. As cadeiras foram sua escolha pessoal. De couro, espaçosas e refletindo seu bom gosto, elas agradavam a todos. Ele, sempre ausente, mais ouvinte do que locutor, deixava sua marca, mesmo que sutil e elegante. Puxou seu charuto e resolveu esperar, tirando baforadas de seuCohiba.
Sr. ? levantou-se e foi até o bar. As garrafas, perfiladas na prateleira atrás do balcão de mogno do bar, eram todas selecionadas a dedo. Sua coleção pessoal, ele sabia como animar uma festa, dar o rumo de uma conversa ou como manter o silêncio, caso o dia fosse para se lamentar. Não era, e ele sabia. O dia era um dia de descoberta, um dia de indagações. De planejamentos, talvez? E por conta disso, resolveu inovar. Trouxe, com cerimônia até a mesa, sua garrafa de ocasiões especiais. Sem rótulo e sem adorno, ela era apenas uma garrafa e um símbolo.
Sr. Nanquim chegou, como sempre, fazendo barulho. Não parou de falar um segundo depois que pôs o pé para dentro da porta. A história do Sr. Verde, teve que esperar. Ninguém se incomodou. Eles gostavam de ouvir Sr. Nanquim falar, não porque ele sempre sabia o que dizer, mas sim porque as palavras pareciam se render para lhe agradar. Toda história tinha dos seus pitacos, e toda frase de impacto era apontada por si.
- Quitutes batutas para os senhores – Começou dizendo Sr. Nanquim, logo que sentou-se na cadeira.
Os outros, já acostumados, não disseram nada. Reviraram os olhos levemente dado o vocabulário pouco formal do colega, mas era costume, e o costume deveria ser respeitado.
Com um pigarro, Sr. Verde, voltou a contar a sua história.
- Tacos de golfe.
Todos assentiram. Era inevitável, o debate sempre voltava a esse assunto central.
- Tenho criado teorias mais do que práticas sobre os tacos de golfe, mas isso já era esperado. Não é que me falte a coragem de por tudo isso em prática no campo, mas é que penso a efetividade de tais métodos que temos debatido.
Eles assentiram novamente. A conversa não era nova. Sr. ?, por um segundo, pensou se realmente valia a pena ter tirado a sua garrafa especial da prateleira, mas continuou ouvindo sem mover um músculo.
- É, evidente já neste ponto, que todos já possuem seus próprios tacos de golfe. Alguns, da sua própria preferência.
- As marcas japonesas – Disse Sr. Óculos virando-se para Sr. ?. – Você sempre foi um apreciador das marcas japonesas.
Sr. ? abriu um leve sorriso.
- Sim.
- Já outros – continuou Sr. Verde – Mudaram de idéia, acharam novas preferências.
- Os tacos escandinavos – Disse Sr. Nanquim, degustando um de seus quitutes. – Ainda os aprecio, embora jogue com outro.
Todos ficaram em silêncio por um tempo, ou, tentaram ficar. Como, já dito antes, o silêncio era impossível. Os ecos de histórias passadas ecoavam nos ouvidos de cada um deles, lembrando de todas as vezes que debateram aquilo.
- Já não sabemos onde isso vai dar? – Disse Sr. Mochila, entrando pela porta. – Eu já disse antes, repito agora, tacos de golfe querem ser jogados. Todos eles! – Disse ele enfaticamente. – Debatemos sobre preferências, debatemos sobre dificuldade em obtê-los, mas no final, nada disso importa. O que importa é o jogo, não encontrar o taco perfeito.
Sr. Mochila, era sempre o último a chegar. A verdade que, sua chegada era sempre aguardada por todos. Sem sombra de dúvida, ele era o mais experiente de todos no jogo, e suas opiniões eram valiosas e importantes, embora, muitas vezes, inevitavelmente acabassem sendo as mesmas. No entanto, não era sua culpa. A verdade, imutável que era, não ia mudar de forma só para que ele pudesse mudar seu discurso.
- Concordo com o Sr. Mochila – Disse Sr. Passos de Dança, em um momento raro de loquacidade.
Todos pareceram surpresos por um instante, não pela concordância, mas pela súbita participação.
- Sabemos – Começou Sr. ? – Mas será este o caminho certo? Eu sempre pensei diferente, e ainda estou convicto de minha posição.
- Não concordo nem discordo de todos – Dizia Sr. Óculos. – Acredito estar no espectro intermediário desta situação, acredito que ambos os lados tem valia.
- Me permitam terminar – Interrompeu Sr. Verde a discussão, – Eu nem mesmo comecei a história, estou na introdução apenas.
Todos voltaram a seus lugares e continuaram a ouvir.
- Estava eu, caminhando sobre o campo verdejante de golfe. Onde a ação acontece, onde a vida se apresenta. Andava sem rumo e sem propósito aparente, a não ser o breve espairecer que é possível nas manhãs frias de julho, aquelas perto do dia do meu nome. Quando pensei que uma partida não me faria mal.
Ninguém o interrompeu. Sabiam que ele estava ganhando tempo, apresentando os detalhes como deveriam ser apresentados. Caso ele cometesse a indiscrição de correr com a história ou deixar de fora fatos importantes, Sr. Óculos o lembraria, com educação, a sua predileção por detalhes. Mas Sr. Verde não esqueceu de detalhe algum.
- Uma partida não me faria mal, mas eu tinha feito mal em não trazer um taco de golfe comigo. Naquele momento travei e pensei que não haveria solução, a não ser voltar outro dia. Quando, de maneira abrupta, a oportunidade surgiu a frente. Encontrei um taco novo de golfe. Reluzente, elegante e , só pelo olhar, eu já sabia, perfeitamente balanceado.
Todos eles trancaram a respiração naquele momento.
- Me aproximei dele – continuou Sr. Verde, – E a princípio tive medo de tocá-lo. Tive medo que já fosse de outro e que não poderia ser por acaso que estaria ali, perdido, pronto para mim.
- Todos eles querem ser jogados! – Esbravejou Sr. Mochila, perdendo a paciência. Ele sabia que a história se repetia dolorosamente em vários pontos que já eram familiares a ele.
- E depois? – Incentivou Sr. Passos de Dança, sem concordar com Sr. Mochila desta vez. – O que aconteceu?
- Eu joguei.
A frase veio rápida, seca e direta, pegando todos de surpresa.
- O quê? – Disseram Sr. Óculos e Sr. ? em uníssono.
- Eu joguei, e fiz o melhor jogo da minha vida.
Sr. ?, com uma pantomima, agarrou-se a sua garrafa especial.
- Eu sabia! – Ele tentava dizer, em meio a risadas agudas e estridentes que todos adoravam ouvir.
O som da risada de Sr. ? encheu o lugar, enquanto Sr. Nanquim, em sua cadeira, balançava-se para frente e para trás, pensando no que acabara de ouvir.
- Direto no buraco, direto. – Murmurava ele, em profunda admiração.
Até mesmo Sr. Mochila, exaltado minutos antes, levantava-se para dar os parabéns para o Sr. Verde.
Servindo rapidamente em copos de marfim gravados com dragões, espadas e escudos, Sr. ? despejava a bebida clara em cada copo. Sem medir exatamente o tamanho da dose, ele só queria terminar o mais rápido possível. quando acabou, virou-se para todos, e com um sorriso matreiro nos lábios disse:
- Hidromel.
Todos beberam.
- Ainda não acabei – Disse Sr. Verde, surpreendendo a todos mais uma vez.
- O quê? – Exaltou-se também Sr. Óculos. – Não me diga que o final não é este, que ainda tem mais. Porque quando vem de si, já sabemos, que talvez coisa boa não será; infelizmente, perturbadoramente, com uma precisão que me faz temer, eu acho que já estou a suspeitar. O que aconteceu agora?
- Quando é o próximo jogo? – Disparou Sr. Nanquim em um fôlego só. – Só me diga que teremos outro jogo.
O silêncio foi ouvido naquela sala pela primeira vez. Se arrastando por todos os cantos, ele foi crescendo. Tomando forma, ele se assentava no semblante preocupado de todos os Srs.
Com um suspiro, Sr. Verde quebrou o silêncio:
- Foi o último.
E, antes que qualquer um pudesse interrompê-lo mais uma vez, ele prosseguiu rapidamente.
- Não guardo do taco nada mais do que uma imagem no campo. Não sei tipo, origem ou criador. Só guardo a lembrança.
Sr. Mochila, feliz pela história ter tido um ponto diferente, de sucesso e alegria, ao mesmo tempo parecia abatido, como se soubesse que deveria ter confiado nos seus instintos. A história, que tinha disparado seus alarmes anteriormente, tinha, de fato, alguns pontos em comum com as outras histórias. Com uma piscadela, indicou para Sr. Óculos que, desta vez, ele deveria dizer as palavras.
- Eu sou o Sr. Verde – Recitou Sr. Óculos, como se imitasse o colega. – Obrigado pela partida. E você, é?
Todos viraram suas doses de hidromel e pousaram os copos, quase que ao mesmo tempo, com um baque na mesa, enquanto lá fora, ao longe, o rugido de foguetes tomava o céu.

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