Um dia de sorte

Ao sair de casa, espera-se as vezes um pouco mais, as vezes um pouco menos, que algo incrível aconteça. Normalmente a expectativa é baixa se estamos indo para o trabalho, escola ou só encontrar os amigos. Nada de incrível, só o comum. Melhor assim, que fique na nossa zona de conforto. Mas quando saímos para algum lugar desconhecido, principalmente festas, a expectativa aumenta. Queremos que algo diferente ocorra, queremos conhecer pessoas novas, e, no caso de Roger, ele queria tudo isso. E ganhar dinheiro.

Quem arquiteta um plano por muito tempo, passa a respeitar muito mais o problema que está a vista. Ao analisar o problema em todos os seus detalhes, é quase possível criar um laço de intimidade com ele. Tramar um golpe é preciso um coração frio, porque o perigo de sentir pena do pobre coitado que será a vítima não está muito distante. Era nisso que Philip pensava, enquanto caminhava com as mãos nos bolsos do jeans surrado que ele usava. A parte dele já estava pronta. O seu maior plano, a sua maior jogada já havia sido composta, e outros só precisariam orquestrar.

Roger era um cara de sorte. Sua família tinha muito dinheiro. Era dinheiro o bastante para dar uma vida confortável, mas não o bastante para pô-lo a onde quisesse. Para isso ele ainda precisaria lutar muito. O objetivo ainda parecia muito distante. Infelizmente ele não era um gênio, nem mesmo mediano. Um pouco lerdo, diriam alguns. A verdade que era apenas um pouco apático as dificuldades da vida, por não tê-las experienciado quando mais novo. A ambição, a responsável por mover muitos, começou a manifestar-se nele tarde demais. E tardiamente na vida que ele tentava ir atrás dos desafios, pouco a pouco, ele tentava ser bom nas coisas que lhe interessavam.

Praguejando, Philip andava na rua em direção da jogatina. Os sinais claros da ansiedade eram visíveis nele. A todo tempo, procurava algo para se distrair, mas acabava voltando sempre ao plano que havia bolado. Iria funcionar? Era a sua pergunta de um milhão de dólares. Philip não é o que poderíamos chamar de “um cara de sorte”. Criado pelos avós, sempre teve a impressão que era indesejado na casa. Deixou tudo para trás e foi morar sozinho aos 16 anos. Trabalhava durante o dia e pensava muito durante a noite. Foi a melhor coisa que ele fez. Pensando chegou a conclusão que estudando teria um pouco mais de chance. E foi o que fez, até conseguir um diploma em um curso técnico de eletrônica. Mas isso não lhe bastava. Ele sempre pensava mais e mais, mas pensava principalmente como poderia tirar dos outros para ter aquilo que ele não tinha.

Roger entrou no cassino sentindo-se estranhamente confiante. Não perdeu tempo com nenhuma distração e aproximou-se da mesa onde se realizaria o tão aguardado jogo de poker. Ele já havia avançado através do torneio informal, e estava próximo do prêmio final. Talvez confiante não seja a palavra certa. Ele se sentia vazio, concentrado em um único ponto.

Philip chegou na construção abandonada onde, desde muito tempo, encontrava-se com seus antigos amigos, da época que ainda morava sozinho nos fundos do trabalho, para jogar truco. Eles subiam até o terceiro andar, e, por horas a fio, bebiam e jogavam. Essa era a distração de Philip, enquanto ele esperava o resultado do seu plano.

O torneio deu início. Com um sorriso zombeteiro no rosto, o homem sentado logo a frente de Roger deixou de ser mais um participante do torneio para virar um oponente. Desde o primeiro momento que Roger pôs os olhos nele, sentiu que havia algo errado. Sentimento que, só aumentava a cada rodada do jogo. Mas o jogo prosseguia, e o que aumentava, eram as pilhas de fichas de Roger.

Philip se envolvia cada vez mais com sua jogatina para fazer o tempo passar mais rápido. Bebendo mais e gritando o mais alto que podia, nem ele tinha mais certeza que era a melhor maneira de fazer passar o tempo.
- Truco! – Gritou alguém da outra dupla.
- Bora! – Gritou o parceiro de Philip, balançando a carta na mão.
O primeiro a gritar, com um sorriso no rosto, mostrou um 3 de espadas.
- Manilha! É espada!
- Droga! – Disse o parceiro de Philip, abaixando a carta.
Naquele momento, a ansiedade nele explodiu. ele arriscou tudo.
- Seis!
E com o seu grito, o chão pareceu tremer.
O oponente de Roger começou a se sentir incomodado. Toda a confiança que ele parecia ter no começo do jogo se fora. Ele passava da água ao vinho, e deixava transparecer, cada vez mais facilmente, qual era o nível das suas cartas para aquela rodada. O que só o prejudicava. E, por mais que tentasse, ele não conseguia esconder. O nervosismo era visível.
Quando, ao iniciarem mais uma rodada, o chão tremeu.
Quando Philip começou a refletir porque o chão estava tremendo, a construção já havia caído. Os andares foram caindo como se fossem todos desconectados, deslisando um para longe dos outros como se estivessem sido apenas empilhados por um gigante. Todos foram para o lado, caindo, felizmente, sobre um descampado. Alguns se chocavam contra os outros e produziam pedaços de alvenaria que, ao se despedaçarem, faziam uma poeira subir. Outros andares, ao serem empurrados pelos mais de cima, rolavam para o lado. Não pode-se dizer que os andares eram unidades, porque quanto mais se mexiam em sua queda, mais fragmentados se tornavam. Mas, para um observador externo, a impressão que blocos caiam e rolavam era algo fácil de perceber.
- Matheus está morto! – Gritava o parceiro de jogatina de Philip – Ele foi… atravessado por uma… – Não conseguiu terminar de falar, enquanto caia em prantos.
Philip se levantou ileso. Assustado, deu dois passos e encontrou seus outros dois amigos, ainda vivos, puxando um terceiro morto, de baixo de uma montanha de escombros.
Pouco depois de terem conseguido recuperar seu amigo, uma multidão chegou. Eram de todos os tipos, mas, eram principalmente do tipo que estavam no Cassino.
Depois do chão tremer, Roger e os outros ouviram um barulho enorme de demolição. A concentração foi embora em um segundo. O jogo foi parado e todos se levantaram, em direção da saída, para ver o que havia acontecido. andaram menos de 100 metros e logo encontraram, ou melhor dizendo, deixaram de encontrar a construção que estava lá antes.
Philip olhou para a multidão que se aproximava com uma cara assustada. A preocupação e o choque eram visíveis nele. Quando, ao ver o oponente de Roger, um leve sorrisou surgiu em seu rosto e ele se dirigiu ao outro homem:
- E então? Funcionou?
- Quase – começou ele, – o tal de Roger, mesmo eu sabendo em algumas rodadas quais eram suas cartas, sabia quando eu não tinha nada. Ele sabia quando eu blefava. ele estava na frente…. acho que vai ganhar.
- Puta que pariu! – Irritou-se Philip – eu deixei tudo acertado para você poder saber as cartas dos outros e ganhar fácil, e você não consegue!
Os dois pararam de falar, porque Roger estava logo ao lado.
- Você está bem? O que aconteceu aqui na verdade?
Philip, pensou por um segundo em agredi-lo, mas reconheceu. Reconheceu que só alguém muito bom conseguiria vencer um jogo que estava sendo trapaceado por outra pessoa todo o tempo.
- Você é bom. – Disse Philip, se afastando junto de seu comparsa.
roger, sem entender, apenas olhou os dois se distanciarem. Ao abaixar os olhos, viu uma carta no chão virada para baixo, e a pegou.
Enquanto observava uma ambulância e mais pessoas chegarem, olhava para as costas dos dois que já estavam longe, e disse baixinho:
- E você é um cara de sorte. –
Virou-se, soltou a carta que saiu voando. E, como se estivesse seguindo Philip, o 4 de ouros foi se arrastando pela rua.

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