O amigo do Bocelli

A gente reclama bastante da realidade. Sejamos honestos, ela é bem sem graça. Não tem robô gigante, não tem orcs, não tem teletransporte e não tem hadouken. Mas se tem uma coisa que a realidade tem, e muito, são histórias bizarras. Já diria aquela frase “A ficção científica é o único lugar que as coisas precisam fazer sentido”. E é só lá mesmo, porque na realidade, tem só a falta do sentido.
Eu não inventei essa história. Gostaria de ter tido, mas ainda não estou nesse nível. Um dia eu voltava da minha aula de alemão com meu amigo Cristopher que havia passado por lá para me buscar. A gente estava indo para casa de algum de nós fazer um trabalho da faculdade, quando no meio do caminho, encontramos ele, Marcelo.
Ele já começou trancando no nosso caminho na calçada e chamando a atenção do meu cão guia.
- Ei! cão! aqui ó, aqui! – começou ele, estralando os dedos. – Vem, vem? isso, vem!
Logo respondemos que aquilo não poderia ser feito, que o cão estava trabalhando e que não deveria ser distraído. A resposta nos surpreendeu mais do que esperávamos:
- Fiquem tranquilos! – Dizia o marcelo mais animado a cada momento. Eu sou veterinário e sei o que estou fazendo.
E aí começou a história toda. Nós estávamos prestes a conhecer Marcelo, um az do conhecimento humano.
- Meu nome é Marcelo. Moro no prédio aqui perto, vocês podem levar o cão para brincar lá em casa qualquer dia desses. Ta uma bagunça, mas você não vai ver, né? A gente poderia assistir um dvd que eu trouxe de Israel.
Eu já nem sabia mais o que estava acontecendo. Marcelo, na calçada, conversava com a gente. Timmy sentado do meu lado e Cristopher, imagino, com uma cara de bunda total logo atrás, porque não abriu a boca uma vez só para repostar o que o cara dizia. Não o culpo, eu mal sabia o que responder.
Passeamos pela vida do cara naquele momento. Aparentemente ele já havia ido para Israel em uma peregrinação qualquer e lá viu alguém curar os olhos de um cego com algum tipo de oração.
- Eu tive um amigo cego uma vez. Cantei com ele. Era o Bocelli, vocês conhecem?

E a conversa seguia, seguia e seguia. A gente não conseguia escapar dele de jeito nenhum. Quando pensei que a história estava acabando ele diz:
- Vamos fazer uma oração juntos para você sentir as vibrações.
Dedinho apoiado em dedinho no ar, ele me fez repetir várias palavras. Até hoje não sei se era latin ou italiano. Uma mistura dos dois, mas mais provavelmente sendo nada. Juro que esperava que a gente fosse pedir uma macarronada ali mesmo porque o nosso sotaque era impecável.
Então, tão subitamente como ele apareceu, ele se foi. Nós ficamos alguns instantes parados, sem saber o que falar, e continuamos o caminho. Depois de uma quadra, eu comecei a dar risada. Como é que esse tipo de maluco sempre vai aparecer querendo me propor alguma cura milagrosa, eu não sei
Mas tudo bem, já estávamos chegando no ponto de ônibus e eu torcia que não estivesse muito cheio. Não estava e quando o ônibus chegou, Cristopher já me disse que teríamos lugar para sentar. Mas como o dia não acaba enquanto não é meia noite, a gente sempre deveria esperar por mais alguma coisa, mas a gente não espera. A gente acredita nas pessoas e acha que tudo vai melhorar.
- É só o que me faltava! – Gritou uma velinha lá do fundo do ônibus, com uma voz bem esganiçada enquanto a gente entrava – Tão trazendo o cachorro pra passear de ônibus agora!

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