E a aventura continua – voltei a morar sozinho

Estou já uma semana morando em BH. Essa foi a primeira semana de trabalho na minha vida. Digo trabalho porque antes só estagiei, e acredito que seja algo completamente diferente estagiar de trabalhar. Dessa vez foi trabalho mesmo, com direito a oito horas (ou mais), diárias. Falando em trabalho, não vou comentar sobre ele. A verdade é que não sei o que posso comentar e o que eu não posso. Para não cometer nenhuma gafe logo no começo, vou pular essa parte e vou contar um pouco mais como está sendo morar novamente sozinho.

Ter feito o intercâmbio na Alemanha me deu uma boa idéia do que esperar quando eu for morar sozinho. Dessa vez as coisas foram muito mais fáceis porque vim na primeira vez para BH com os meus pais, que me ajudaram a alugar um apartamento. Apartamento que encontramos em tempo recorde. Em menos de uma semana rodamos quase todo o bairro, achamos um apartamento, fechamos com a imobiliária, limpamos o lugar (que tava uma zona, sujo pra kct), compramos os móveis, eletrodomésticos e deixamos tudo certo. Aliás, fica registrado aqui mais uma vez o meu muito obrigado aos meus pais que transformaram um lugar muito zoado em um lar. Sem brincadeira, fiquei muito bem instalado e graças a eles. Valeu aí pai e mãe! :)

Minha rotina tem sido acordar cedo, por volta de 07:30 ou 08:00. Acreditem se quiserem, eu consegui acordar religiosamente todos os dias esse horário. Vou para o escritório, tomo café por lá mesmo, trabalho por volta de oito horas diárias, sem contar o tempo pra almoço e café da manhã. Chego em casa lá por umas 7 da noite e passo o resto do dia na Internet em casa. Até aí tudo bem, mas como não poderia deixar de ser, certas dificuldades surgem nos lugares mais inesperados.

Inicialmente eu levaria meu cão guia (oi, Timmy!), mijar / cagar na frente do prédio, no meio fio da rua. O problema que a rua é tão inclinada que quando ele faz cocô, ele sai rolando e eu não consigo juntar. Deixa eu aproveitar a oportunidade e contar como eu faço para juntar o cocô do cachorro. Que merda de texto, mas vamos lá. Obviamente eu não espero ele terminar e fico lá abaixado cheirando o chão procurando pelos dejetos, ainda sou um bípede e me comporto como tal.
Já que não da para levar na frente do prédio, eu vou na rua ao lado que é plana. Chego lá, dou o comando para ele fazer as necessidades. Ele começa a girar, a fazer o ritual do cocô. Ele tem toda uma técnica para conseguir se aliviar. Ele gira, gira, se abaixa e começa a andar. Aí, se eu não seguro o bicho pela coleira bem forte, ele começa a cagar e andar pra mim. Literalmente. O truque é notar quando ele começa a girar, quando ele para por alguns instantes, quer dizer que ele começou. Eu sigo a guia dele, seguro ele pela coleira no pescoço e aponto o meu pé na direção da bunda dele. Quando ele termina, eu deixo ele se mover novamente soltando a coleira. Me abaixo e pego com a sacolinha. Mas esse não é o problema, o problema é jogar a sacolinha no lixo. Juro, essa é a parte difícil.

A lixeira fica na esquina do meu prédio. Por mais que eu treine o meu cachorro para identificá-la, ele tem se recusado a ir até lá. Na cabeça dele só existem dois destinos possíveis quando pisamos naquela calçada. A entrada do prédio ou a entrada da padaria que fica na esquina. E olha que já fiz várias vezes o treinamento de targeting, algo que ele costuma ser bom, para identificar lugares / objetos. Daí quando vou procurar a lixeira ficamos lá andando para cima e para baixo da calçada com a sacola de cocô na mão e os vizinhos lá na janela provavelmente olhando e pensando: “que horror! ele nem consegue achar a porta de casa.”

Eventualmente eu desisto de tentar achar a lixeira e peço pro porteiro ou para algum transeunte me mostrar onde está a lixeira. As vezes eu acho ela, mas é por sorte. Para ser justo, provavelmente ele não tem achado porque ela é bem alta e talvez esteja fora do campo de visão dele e porque ao redor tem várias árvores, uma rampa do mal e ele não quer me levar até lá porque acha que não é seguro. Mas eu sei que tem como, e como só fizemos duas vezes o treinamento de targeting, acho que em mais uma semana ele vai conseguir achar a lixeira.

Como estou morando a meia quadra de onde trabalho não estou precisando andar muito pela região. Ainda bem, porque as ruas aqui são muito confusas. Tem ruas que são paralelas entre si e outras são diagonais, o que cria uns cruzamentos muito loucos de várias ruas. Aliás, aqui não são quadras, são triângulos. Toda vez que tento imaginar o mapa mental das ruas, eu suspeito que as regras da geometria euclidiana são ignoradas porque posso jurar que a soma dos ângulos de alguns triângulos (que deveriam ser quadras), estão dando mais que 180 graus.

Mas não estou acomodado em casa. Para vocês verem que eu tenho futuro para criar o mapa na minha cabeça do lugar, eu já consegui dar informação para uma pessoa de onde ela deveria virar para chegar em uma rua. Também já fui passear em uma praça aqui perto, que um amigo meu cego que também tem cão guia me recomendou passear. Aliás, isso foi muito interessante. Ele me deu algumas instruções de como chegar no lugar a partir de um ponto que eu já sabia chegar. Foram instruções mais do que úteis porque como ele enfrenta o mesmo tipo de dificuldade do que eu, a explicação dele foi super precisa. O passeio dessa manhã foi muito agradável. Além disso, cada final de semana estou tentando ir almoçar em um restaurante diferente para conhecer a região e obviamente, conhecer os restaurantes :P

ps: Espero que minha cortina chegue logo porque não to podendo ficar de cueca na sala. Tem uma série de prédios ao lado que podem ver minha janela e o meu corpitcho nu.. Do que adianta morar sozinho e não poder andar de cueca em casa?

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Comments

17 Responses to E a aventura continua – voltei a morar sozinho

  1. DDD says:

    Bacana, e a vida social? Conhece alguém ai já? A namorado foi junto?

  2. Larissa says:

    Eu ri tanto com o texto! Seu bom humor é invejável!
    Queria muito morar sozinha para ver como é :)

    Boa sorte com a vida nova! Grande abraço!

  3. Melanogaster Pi says:

    A parte da cueca é muito verdade. Cozinhar de cueca e avental é sinônimo de liberdade.

  4. Elaine says:

    Uma figura você!
    Ótimo texto, ótima experiência para se compartilhada. Aprendo muito e fico imaginando meu Rafa indo morar sozinha….afffff…….

  5. Nilda says:

    Que bom que está conseguindo se virar por aí moço!
    Logo logo o Timmy aprenderá onde é a tal lixeira e com o tempo os seus vizinhos irão se acostumar com a sua presença

    E espero que a cortina chegue logo, porque em BH o calor é uma constante, e não poder andar de cueca ou pelado no próprio apartamento é terrível

    abraços

  6. Elinaldo Jr says:

    Nossa, muito bom esse post, me diverti muito lendo essa estaria do Timmy rodando pra fazer as necessidades. rsrs Eu sou de Itabuna – BA, mas sempre que vou a BH visitar meus primos, fico impressionado como existem tantas avenidas que se cruzam no centro da cidade, sempre fico confuso quando ando por lá. No mais, boa sorte no primeiro emprego e felicidades na cidade nova. Abraço.

  7. h3l says:

    e eles devem ficar com mais dó de você ainda graças à novela que acabou…

    e que bom que as coisas já começaram bem ^^
    agora, além da cortina, precisa arranjar um ar condicionado, porque BH é calor meeeesmo…

  8. Alexandre says:

    É isso ai Lucas!
    Nossa vida é assim, um desafio novo a cada dia, mas vamos passando por cima deles como verdadeiros tratores.
    Em muito pouco tempo voce se acostuma e espero que em breve pinte alguma oportunidade de algum evento por ai por BH não só para eu te apresentar umas pessoas bem legais mas também pra voce me apresentar uns bons restaurantes!
    Força e sucesso meu amigo!
    Abraços

  9. Gustavo says:

    Sou de BH e acredito que você gostará de viver por aqui. Se precisar de algumas indicações estou à disposição.

    Abraços

  10. Humberto Pinto Silva says:

    Tem meu respeito !! Gosto muito do seu blog !!

  11. Fran says:

    Hey Lucas, beleza?
    Bom, isso não é relacionado ao post, mas to postando aqui pra ver se você me dá uma ajuda.
    Então, você fez ciências da computação né? Bom, eu comecei esse ano bacharelado em informática (ainda não tenho certeza do que fazer então por enquanto vou nesse mesmo), e pensei que talvez você pudesse me ajudar com programas, etc. Desde o ano passado até agora perdi mais de 90% da visão, então eu não sei bem o que usar pra lidar com programação e tudo mais. Tenho usado o NVDA para usar a internet e tal, mas não sei se só com ele vou dar conta.
    Enfim, pode me dar uma ajuda? Se puder me mandar um email (ffalbini@gmail.com)
    Obrigada!

  12. Fala Lucas!

    Muito legal poder ler suas experiências cara, também sou deficiente visual e estou morando sozinho, só não tenho um timmy rs :P

    Mas estou participando de um processo seletivo do Sesi/SP para tentar conseguir um cão-guia, se puder me mandar uma mensagem por e-mail pra nós trocarmos contato e trocar ideias…

    Abração!

    Ah, moro Em São Paulo – SP.

  13. Raphaela says:

    Oi! Quase certeza que te vi hoje na faculdade. Engraçado que ví um vídeo seu no youtube por acaso, e já faz muito tempo (talvez mais de um ano) e quando te vi hoje tive certeza que era você. Agora lí que já se formou e estou na dúvida, mas talvez esteja fazendo alguma outra coisa lá. Estou lendo algumas postagens mais antigas, seu blog é bem interessante! Bem vindo à BH :)

    • Lucas Radaelli says:

      Então! Eu estava indo na UFMG para fazer uma matéria do mestrado, embora eu não faça mestrado lá, me deixaram fazer uma matéria que eu me interessei… foi isso =)

  14. Araguaci says:

    Boa sorte em sua nova morada.
    Teu parceiro é igual ao meu quando vai fazer o 2, fica girando e quando começa vai andando e desenhando os pontos no chão uns dois metros adiante, é uma piada, rs.
    Estou precisando falar contigo, pode me enviar seu celular?
    É um projeto que preciso desenvolver em PHP.

  15. Gabriel Aquino says:

    ahuahuhahuauahahauhahauahha Ri pra caralho nesse post. Muito bom heheehehe.

  16. Pingback: Em terra de cego, que tamanho deve ser a TV? | lucasradaelli.com

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