A Globo e seus Coitados

O mundo já é cheio de estereótipos. Se você tem uma deficiência então, ganha-se muitos outros automaticamente. No caso da cegueira, personagens cegos na maioria das vezes são retratados seguindo duas vertentes: o coitado inútil e o herói poderoso. A Globo, mais uma vez, coloca um personagem cego em uma de suas novelas. Eu não assisto novela, acho que isso eu nem preciso dizer. Mas fiquei impressionado com algumas poucas cenas que me foram descritas deste tal cego, que nem consegue saber se está de dia ou de noite. Acho que esqueceram de apresentar ao “roteirista” o conceito do relógio.

Em uma pesquisa que fiz aqui, essa não é a primeira vez que isso acontece. Nas novelas América, Caras e Bocas e na mais recente, Amor a Vida, os mesmos problemas já foram observados. Personagens cegos que são menos do que pessoas, agindo feito como se fossem retardados!

Por que eu me importo, talvez seja a questão correta. Infelizmente o alcance que essas novelas possuem é enorme. Quer queira, quer não, o que será mostrado lá será base de julgamento para muita gente no nosso país, retrocedendo em décadas o trabalho de inclusão que é feito. A desinformação sempre foi o maior problema para as pessoas com deficiência ao relacionarem-se com outras pessoas, e ao levantarem esses estereótipos de maneira tão caricata e estúpida, tudo só piora e se agrava.

A cena que fiquei sabendo mostrava este cego aproximando-se da piscina, caindo nela e se afogando. Esse mesmo cego que quando enxergava, dono da casa, sabia nadar. Eu não sabia que precisa-se de um par de olhos para nadar, se eu soubesse, não teria feito anos de aula de natação. Desculpem o atrevimento.

Ouvi dizer também que a intenção do “roteirista” era representar as dificuldades de uma pessoa que acabou de ficar cega. Imagino que dificuldades não implicam em atraso mental, coisa que o personagem parece mostrar só para piorar essa imagem caricata de coitado. Além disso, como já comentei, as dificuldades mostradas não chegam nem perto do que seria a realidade.

Enquanto usarem personagens cegos para mostrarem coitados ou heróis, apenas estarão fazendo um desserviço e prejudicando a imagem dessas pessoas, que tentam diariamente combater esses preconceitos e estereótipos que as perseguem. No dia que puserem uma pessoa com uma deficiência, que viva sua vida da maneira que ela realmente vive e esse foco absurdo na superação, independência, a deficiência em si for eliminado, teremos uma melhoria. Afinal, eu não vivo aqui o dia inteiro me lamentando ou pedindo se é dia ou noite, pelo contrário, eu tento viver minha vida da melhor maneira possível e acabo fazendo a maioria das coisas que todas as outras pessoas fazem. Isso sim é mostrar o que é inclusão e o que é a realidade.

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Comments

16 Responses to A Globo e seus Coitados

  1. Juliana says:

    Apenas um grande escritor é capaz de descrever situações as quais não vivenciou. Isso não é o caso dos roteiristas das novelas da Globo, o que as torna medíocres e superficiais. Infelizmente, essas pessoas são formadores de opinião da massa brasileira.

  2. Lucas. Posso reproduzir esse texto no cotidiano Cego? Lógico que darei os devidos créditos.

  3. Muito bom o post Lucas! Aliás, conhecer você mudou muito a ideia sobre os cegos para mim. Seu exemplo é impressionante, o problema que a maioria das pessoas tem de criar conceitos errados é por não conhecer nenhum cego, e ver que a vida pode ser completamente normal, com algumas dificuldades mas com tantos outros talentos.
    PS: Parabéns pelo novo emprego.

  4. Fato Lucas, Tenho A Mesma Opinião Que Tu Sobre Essas Novelas. Não Assisto Televisão, Não Gosto. Fiquei Sabendo Que Tinha Cego Na Novela Nova Das 21:00 Por Esse Teu Poste. Infelizmente Essas Coisas Que A Globo Mostra Retrata A Realidade De Nós Cegos Como Verdadeiros Coitados E Infelizmente Muitas Das Vezes Não É Só Na Novela, Mas As Vezes Minha Mãe Também Vem Me Falar Que Apareceu Um Cego Em Algum Programa Da Globo Etc… E Na Maioria Dos Casos Os Caras Se Passam Por Coitados, Aff Realmente Essa Galera Retrocede Todo O Trabalho De Inclusão Que Vem De Anos No País E Para Isso Ser Mudado Aqui, Vai Demorar. Mas Parabéns Pelo Poste Vou Compartilhá-lo Nas Redes Sociais Twitter E Facebook. Grande Abraço.

  5. Achei o texto legal. Estou passando só pra dar uma sugestão. Já que você tem algum alcance midiático, se por acaso você falar com um roteirista da novela (nunca se sabe), acho que seria interessante consertar esse problema com o cego da novela passando a ficar mais independente com o tempo. Isso pode inclusive ser retratado com outros personagens se preocupando mais com ele do que ele precisa em algumas situações, e de repente descobrindo que ele já tinha conseguido fazer a parada sozinho sem problema nenhum.
    Aliás, não sei como o cara está na novela, mas seria muito legal se ele passasse de “ô, como eu queria voltar a enxergar” pra “tenho que me acostumar com isso” e ficasse todo independente e, principalmente, terminasse a novela cego mesmo (e feliz), ao invés de curado no último episódio por algum médico fodão.
    Acho que um personagem assim ia gerar uma mídia positiva bem legal pra novela, inclusive, hein?

    • Lucas Radaelli says:

      concordo com você, é como eu disse no texto, se ele fosse retratado de maneira realística e não fantasiosa, apenas para justificar uma trama sem graça nenhuma. O problema que eu duvido que qualquer sugestão vai adiantar. A organização nacional de cegos do brasil já mandou uma carta de repúdio ao tipo de cena da novela e por enquanto não tiveram nenhuma resposta…

  6. Flávio Oliveira says:

    Parabéns, Lucas! Gostei do texto e concordo com todas as suas observações sobre os esteriótipos dos personagens nas novelas. Eu até que assisto essa novela, uma bela M*. Então posso dizer: 1. Não consta que o personagem vivido por Antônio Fagundes soubesse nadar antes de ter ficado cego. 2. A maneira estúpida com que ele vive sua cegueira recente não é a única coisa inverocímel na personalidade desse personagem. Ele é um completo paspalho nas mãos de sua mulher novinha e golpista. 3. Aliás, de inverocimilhanças essa novela está cheia. Mas enfim, se é assim, então por que eu assisto? Bom, sei lá… É a hora que eu já estou bem cansado, então caio no sofá e fico alí com minha atenção flutuante. No mais parabéns pelo post!

  7. Nina says:

    Para o texto ficar melhor, por favor corrija a palavra, porque “esteriótipo” não existe; o correto é esterEótipo

  8. Carlos Artur Diniz Marques says:

    Parabéns pelo texto, Lucas Radaelli. As novelas já não me ocupam tempo algum, porém considero-as prejudiciais, na medida em que estabeleçam paradigmas deturpados de comportamento e de consumo para uma boa parcela de seus expectadores. Vendem de tudo, de sandálias à eletrodomésticos, transmitem conceitos rasos, alienam, mentem, exploram falsas intelectualidades e falsos conceitos de cultura e moral – enfim, considero-as culturalmente nocivas. No que se refere à sua deficiência, como de resto na maioria dos personagens desses folhetins, exageram nos clichês e extremismos, num patamar surreal de comportamento cotidiano. Quisera fossem melhor utilizadas. Poderiam transformar-se num veículo sensacional de transformação sociocultural.

    • Carlos Artur Diniz Marques says:

      Parabéns pelo texto, Lucas Radaelli. As novelas já não me ocupam tempo algum, porém considero-as prejudiciais, na medida em que estabeleçam paradigmas deturpados de comportamento e de consumo para uma boa parcela de seus expectadores. Vendem de tudo, de sandálias a eletrodomésticos, transmitem conceitos rasos, alienam, mentem, exploram falsas intelectualidades e falsos conceitos de cultura e moral – enfim, considero-as culturalmente nocivas. No que se refere à sua deficiência, como de resto, na maioria dos personagens desses folhetins, exageram nos clichês e extremismos, num patamar surreal de comportamento cotidiano. Quisera fossem mais bem utilizadas. Poderiam transformar-se num veículo fantástico de transformação sociocultural.

  9. Parabéns pelo post Lucas !! Realmente a Globo retrata não só o cego, mas qualquer portador de deficiências físicas ou mentais como um pobre coitado que sofre e lamenta pela sua perda. Diria até que não só a Globo faz isso, mas a tv aberta inteira. Sei qie existem ótimas matérias e reportagens sobre esse tema, porém elas são minorias próximo a esse mar de estereótipos que a tv nos proporciona. Enfim, parabéns pelo post, aposto que esse texto abriu a cabeça de muita gente.

  10. Lúciu says:

    Parabéns pelo post Lucas, muito bom.

  11. Cada célula de nosso organismo é composta de todos os sensores de nossos sentidos, sejam os que sabemos de ter e os que ignoramos. A pele vê, os olhos comem, os ouvidos cheiram e o nariz escuta, assim como o coração pensa e o cérebro sente, não ignorando os rins que filtram as emoções, enquanto o intestino reage automaticamente exigindo o que é vital para manter o corpo vivo e se autorregenerando em sua automática recomposição. A cada minuto em nossos corpos morrem aproximadamente quatro milhões de células e nascem outras milhões e a cada ano somos seres 100% diferentes daqueles que éramos na mesma data do ano anterior. Cegueira não existe se o corpo é inteligentemente educado a adaptar-se no ambiente onde vive. Este ambiente é o mundo. A Inteligência de uma célula é a inteligência do corpo que lhe serve de casa. O mundo é a casa do corpo seja ele cego ou não. Não vejo cegos como cegos, vejo somente cegueira no corpo onde ignorância fez moradia. Tenho aprendido muito com o Lucas, apesar de eu ter a idade de ser seu pai o tenho como mestre em diversos fatores. Para o Lucas não existe cegueira, não existe complicações e não existem barreiras. A verdade é que ele sabe o que quer e sabe onde buscar. Ver não importa, ele as sente e conhece quimicamente as energias de cada corpo. Pensamentos perante o Lucas são frases gritantes. Se todos conseguissem alimentares os talentos de sues corpos, – a ferramenta mais perfeita para o aperfeiçoamento da inteligência, – não ficariam apenas sobre a superfície. Conhecimento é tudo, crenças e estereótipos são cegueiras.

  12. Clinger Xavier Martins says:

    Olá. Essa questão me faz lembrar daquele caso de um deputado que, mediante ter sido flagrado votanto alguma coisa não muito recomendavel disse “estou me lixando pra opinião pública” É exatamente o que ocorrre com a Globo. A verdade é que, segundo eles, apresentar um cego tal qual um coitado ou herói vende mais. Note que essa não é a única bola fora do plimplim. Basta ver a reengenharia social que vem sendo martelada ao longo de seguidas novelas, mostrando que é legal queas mulheres se tornem periguetes. Só pra mostrar mais um exemplo, outro dia passava pelos canais e parei nessa mesma novela que mostrava uma audiência! Meu Deus, que barraco, um verdadeiro mercado de peixe! Evidentemente uma audiência não funciona assim, mas ela é apresentada no formato que vende mais, não como ocorre de verdade. Salvo engano, há tempos foi apresentado na Malhação um personagem que era cego. Não sei como se deu, mas pelo andar da carruagem deve ter sido na mesma linha. Em suma: Quando um ator vai interpretar um personagem indiano por exemplo, é feito todo um trabalho e pesquisa para caracterizar o ator como tal. Já com um personagem cego o mesmo não acontece, porque interessa que as coisas continuem assim, vende mais. Gostaria de fechar com uma noticia boa e uma ruim respectivamente. Boa: A novela está acabando. Ruim: Vai começar outra muito pior. Feliz ano novo!

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