Decisões

Por alguns segundos, me perdi em pensamentos enquanto observava aqueles olhos, tão parecidos com os de minha mãe. A voz do meu passado, tão calma e ao mesmo tempo carregada de ódio, soava nos meus ouvidos como se estivesse  presente no  carro aquela hora.
- Você está me ouvindo? 
- Como? Perguntei, um pouco desnorteado.
- Eu estou aqui falando já algum tempo e você parece que apagou, cara. – E não me peça para repetir, só preste a atenção de agora em diante.
- Ah, ok -  concordei, também,  com a cabeça – olhei para a estrada, para me desviar daqueles olhos. Vi pelo espelho do carro a garota ao meu lado se remexer,  um pouco desconfortável, enquanto eu evitava, por um triz, de colidir com uma moto que entrava na pista de forma brusca.
- Não esquenta. – eu disse, sorrindo para ela. – Eu sou o cara mais rápido que você vai conhecer.
No momento que faleis essas palavras, me arrependi. Logo lembrei da minha mãe novamente, a quem eu tentava esquecer alguns instantes atrás. Ela sempre dizia que me faltava iniciativa, que eu não tomava as decisões  pertinentes. Ela sempre acabava resumindo dizendo: – “Você não é rápido, filho.” 
A verdade que eu queria que ela estivesse aqui hoje para ver no que eu me tornei, possivelmente, o cara mais rápido do mundo.
- A onde é que estamos indo? – Perguntou a garota, remexendo-se  estranhamente no banco novamente. Ela não parecia estar nervosa, mas sim em alerta.
- Você já vai ver.
- Não foi isso que combinamos. Disse a garota com uma tensão na voz que eu não esperava que viria tão cedo. Logo ela engoliu as palavras dela, e eu também.
Um pouco antes de chegarmos no destino, eu vi o meu “parceiro”. Ele corria atrás de uma outra garota magrinha e baixinha, que estava de bicicleta. 
A garota ao meu lado gritou, enquanto mandava eu parar o carro. Eu já parava o carro de qualquer modo  enquanto via diante dos meus olhos todo o plano se desfazer em pedaços. 
Enquanto eu  remoía, mais uma vez, a minha falta de sorte, a garota puxou uma faca e encostou no meu pescoço.
- Paradinho aí, cara. – Eu já sei quem vocês são, graças ao seu amigo monstrengo ali. – Ela dizia, enquanto olhava com nojo para o homem de quase dois metros e meio de altura, com uma pele que parecia couro, interronpida por    alguns pelos que   saíam de camadas mais abaixo da pele,  e um par de chifres, que mais pareciam duas grandes bolas na cabeça dele, porque mal tinham pontas. Ele   corria atrás da outra menina. Com um pouco de medo na voz, ela continuou:
- Agora grite para ele parar e não tocar na minha amiga.
Não prestei a atenção no que ela disse. Novamente eu havia me perdido nos olhos dela. Tomei minha decisão em um micro-segundo. Saltei para fora do carro em menos de um piscar de olhos, percorri a pequena distância que era dar a volta no carro, abri a porta dela e a joguei para fora. Antes mesmo que ela soubesse o que se passava, eu já havia posto a garota  inconsciente com uma pancada certeira ao lado da cabeça.  No segundo seguinte, eu estava ao lado do meu parceiro, que havia tropeçado estupidamente, o que só me fazia lembrar de como eu odiava trabalhar com ele.
- Anda logo, Chifrada. – É a outra garota que sabe de tudo. 
- Como é que você sabe? – disse ele, levantando-se sem jeito.
Não respondi. 
Corri atrás da garota, que entrava em uma casa de madeira e batia a porta. Escutei o barulho da chave e decidi esperar pelo chifrada, para bolarmos um plano. Precisávamos dessa garota viva e eu já me virava na direção do meu parceiro, para dizer o que eu havia decidido, quando ouvi ele vindo, correndo na minha direção, saltei para o lado praguejando,  enquanto ele ia de cabeça contra a  porta de madeira. Aos meus olhos, pareceu  que ele havia mergulhado simplesmente naquele monte de madeira. Em um segundo tudo estava de pé, e  no outro a parede da frente da casa estava no chão, e o teto inclinava-se para frente, vindo a cair sobre o Chifrada alguns segundos depois. 
Antes que uma viga atravessasse sua nuca, eu empurrei a ameaça para o lado, e comecei a puxá-lo daquele monte de entulho. Registrei a garota que procurávamos saindo da casa por uma porta traseira e iria alcançá-la quando me surpreendi novamente, me deixando sem ação mais pelo ódio do que qualquer outra coisa,   Chifrada chacoalhou-se como um cão molhado, jogando destroços para todos os lados, e voltou a correr. Ao invés de contornar a casa para pegar a menina, ele foi direto para a parede de trás, chocando-se contra ela também. A parede caiu, como se fosse apenas uma peça inteiriça encaixada ali, por sorte ele conseguiu escapar  do teto que  beijava o chão completamente.
Deixei que ele a pegasse mas, para meu completo espanto, ao invés de apenas capturá-la, ele a chifrou, como todo o resto, jogando seu corpo sem vida  metros de distância longe.
-  Mas que porra! – Gritei o mais alto que podia. – Que merda você fez?
 Ele rugiu, como se fosse um animal, olhando para cima.
- Chifrada! Que porra! – Gritei novamente, tentando, sem saber porquê, que ele me notasse.
Quando ele olhou para mim, eu entendi. Foi uma revelação que veio muito mais rápido que qualquer uma das minhas rápidas decisões. Eu não tinha decidido porcaria nenhuma. Meus planos, não eram decisões, minhas   ações, não eram o resultado de uma avaliação rápida da situação. O que eu achava ser uma rapidez ao agir não era muito melhor do que o que o Chifrada acabara de fazer. Aquele trabalho, apenas uma justificativa para eu poder usar meu poder de alta velocidade, era mais um erro que eu havia cometido.
Puxei minha arma e  engatilhei em um espaço de tempo que faria qualquer duelista do velho oeste me invejar por eras. Mirei no peito daquele desgraçado, onde um tufo de pelos se sobressaia na pele,  e atirei.
- Por quê? – Disse ele, se engasgando com seu próprio sangue,  os olhos meio revirados, dando mais ainda a impressão de ser apenas um animal confuso.
- Foi minha última decisão por impulso, Chifrada. – Não pude resistir, você me faz lembrar demais de mim mesmo.
 Eu já estava no carro antes mesmo de ouvir o baque do corpo dele caindo no chão. Eu sentia que finalmente havia decidido  algo de verdade e que havia tomado a decisão correta. Por impulso, quase botei fogo nos restos da casa, de tanta raiva que estava. Ao invés disso, peguei a garota inconsciente  nos braços e a coloquei no carro. Naquele instante sorri, enquanto ligava o carro. Agora eu decidia. Quem sabe, agiria.

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Comments

One Response to Decisões

  1. Sue Santos says:

    Você possui uma coisa que muita gente tenta em vão conseguir: narratividade.

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