Sobrevivendo

Oi, eu me chamo Lucas, sou estudante, cego e estou fazendo um intercambio na Alemanha.
Faz tanto tempo que não escrevo no blog que achei necessário uma primeira apresentação, caso vocês tenham se esquecido de algum detalhe (haha).
Brincadeiras a parte, eu sempre tento por na cabeça que quero ter uma regularidade na escrita, mas é algo que eu realmente não consigo fazer. Quando as coisas são muito banais ou muito vagas, eu simplesmente apago tudo que escrevi e deixo pra lá. Dizem que Douglas Adams foi trancado uma vez em um quarto para continuar escrevendo O Guia do Mochileiro das Galáxias. Vou tentar o método um dia desses para ver se me ajuda.
Meus amigos tem me cobrado por mais textos . A pergunta superficial típica: “E aí, quando sai um texto novo no blog?”- Mas que, no fundo, todos sabemos o que eles realmente querem dizer:
“- E aí, já explodiu a cozinha? Já foi atropelado? Quase matou alguém?”
A resposta, para todas essas perguntas ocultas, é não.
Tudo tem sido bem mais tranquilo agora que as aulas começaram e o ritmo das coisas passou a ser um pouco mais estável. Minha rotina se resume a ir para as aulas da faculdade, ir para as aulas de alemão, mercado, almoçar na Mensa e sair as vezes no final de semana com o pessoal.
Falando em faculdade, estou fazendo 4 matérias:

  • Robotik I – Einführung in die Robotik = Robótica 1 – Introdução a robótica
  • Computer Vision für Mensch-Maschine-Schnittstellen = visão computacional para interação homem-máquina
  • Maschinelles Lernen = aprendizado de máquina
  • Grundlagen der Automatischen Spracherkennung = fundamentos do reconhecimento de fala automático

De certa forma, são matérias relacionadas a área da computação que mais me atraem, sistemas cognitivos, inteligência artificial e por aí vai.
Em relação aos materiais, utilizados pelos professores, dessas matérias, a universidade já começou a prepará-los para mim. Eles pegam os livros e passam para o formato digital: fórmulas matemáticas, gráficos e figuras, produzem essas coisas de uma forma acessível. No caso das figuras, eles sempre as descrevem. Os gráficos são reproduzidos em alto relevo com uma impressora especial que eles tem por aqui. Já com as fórmulas matemáticas, escrevem tudo em LaTeX, que é uma linguagem de demarcação utilizada para escrever documentos científicos.
Infelizmente todo esse processo demora um pouco para ser feito. Não só aqui, como em todo lugar, isso sempre demorou. Então estou como eu sempre estive no início de todo curso, meio perdido sem meus materiais, estudando quase nada até que as coisas cheguem em minhas mãos e eu possa começar a pegar pesado no que diz respeito ao ritmo de estudo.
Sem nenhuma conexão com o assunto anterior, gostaria de contar rapidamente como preparei uma lasanha esses dias. Eu nunca tinha usado o forno sozinho até então. Notei, de imediato, dois problemas:
1. Saber quando a comida estaria pronta, afinal, todos sabemos que não dá para confiar no tempo que vem na embalagem;
2. Retirar a embalagem lá de dentro sem me queimar.
Bolei uma técnica que serviu super bem.
Eu coloquei a lasanha lá dentro e, 30 minutos depois, fui verificar se estava boa. Coloquei uma luva para não queimar minha mão, e segurei um garfo. Com o garfo fui tateando dentro do forno até encontrar a lasanha, espetei ela até o fundo para verificar o sabor. Estava ruim então deixei mais alguns minutos.
Dez minutos mais tarde fiz a mesma coisa.
Usei o garfo como uma espécie de bengala, tateando a parte de cima do forno, de baixo, os lados, para ter uma noção do espaço e não encostar o meu pulso, que não estava coberto pela luva, e desse modo me manter sem queimaduras.
Encontrei a lasanha, provei, estava boa. Troquei o garfo para a mão que estava sem luva e puxei a lasanha com a mão direita, que era a que estava protegida pela luva. Flawless victory!
Outro dia também resolvi fazer umas salsichas. Coloquei a água para ferver, pela primeira vez na vida. Nessa, admito, um amigo me disse quando a água estava fervendo, o que foi uma boa, porque eu prestei atenção em todos os estágios da água, para saber as diferenças no som que ela faz até estar realmente fervendo. Joguei as 3 salsichas lá dentro e esperei uns 4 minutos. Depois retirei a panela e perdi algum tempo tentando pescar as salsichas lá de dentro com um garfo, mas deu certo. Depois só joguei a água quente na pia e comi feliz.
Acho que com o tempo vou melhorando minhas habilidades culinárias. Pra quem saiu , completamente, do zero, da para dizer que estou indo bem. Minha próxima meta é aprender a fazer um macarrão com algum molho qualquer.
Além das aulas regulares da universidade, estou fazendo uma aula de alemão duas vezes por semana. Estou fazendo o nível B2, o que significa que estou entrando no alemão avançado. Mas para ser honesto, a aula está um pouco acima do meu real nível. O problema é que, eu já havia feito o B1.1, e o B1.2 seria apenas 3 horas de aula por semana, o que eu acho pouco. Por isso escolhi pegar o B2.8, que vai cobrir o B2.1 e B2.2, com 8 horas de aula por semana.

No geral, acredito que isso não vai ser um grande problema. O que me fez achar que eu não estava no nível da aula foi um texto que o professor passou, com 6 perguntas. Das 6 perguntas, consegui responder apenas 3 e achei o resultado ruim. Mas no final das contas, ninguém da turma conseguiu responder mais que 3 perguntas…. então de certa forma, eu talvez não esteja ainda no nível B2, mas o resto da turma também não, o que provavelmente fará o professor dar uma facilitada no nível dos textos que ele traz. De resto, a parte de gramática e outros exercícios, tenho lidado sem maiores problemas.

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Comments

16 Responses to Sobrevivendo

  1. Leandro Theodoro says:

    Olhe ai, vou guardar toda essa história pra mostrar pros meus filhos, Lucas você é um exemplo de superação brother!

  2. Luz Marina Leon Bordes says:

    Oi Lucas
    Sou amiga da sua mãe e lendo seu texto imagino o quão orgulhosa ela deve estar de ter um filho como você. Tenho um sobrinho que luta contra o ceratocone(não sei se escrevi certo), já fez um transplante e depois sofreu um acidente bem no olho transplantado. Por enquanto está cego deste olho e o outro tbém está comprometido. Mas…afinal, todos nós vamos vivendo e sobrevivendo com tudo o que temos. Você é um exemplo de vida. Um grande beijo.

  3. Mathias says:

    E a história do Leo? hahaha

  4. Lars says:

    Muito bom seu texto! Achei divertido saber sua experência aí ateé agora. E eu não me importaria de ler textos só com coisas banais, não precisa fazer só posts com histórias mirabolantes como “quase matei alguém” hahaha.
    Conta mais das peripécias na cozinha quando tiver feito algo novo.
    Abraços

  5. Rafael de Souza Mota says:

    Parabéns Lucas, sempre mostrando que você e fera. Eu nunca consegui sair nem do alemão básico, quanto mais tentar o avançado, para falar a verdade nem das aulinhas de inglês consegui terminar, cada vez que leio um texto seu ou post de twitter, penso que tenho que aprender inda mais com sua determinação.
    Parabéns e boa luta com os alemães Glück mit den Robotern.

  6. romariofot says:

    olá lucas sou fã das suas histórias e dos seus textos.
    boa sorte nesta aventura divertida, e um tanto perigosa.

  7. Roberta Elisa says:

    Você poderia resumir este post em “O Restaurante no Fim do Universo.”, teria falado de Douglas Adams e comida de modo mais rápido!
    E sobre a salsicha, joga a água primeiro fora (uma peneira ajuda) e jogue água fria em cima. Eu sempre faço isso, assim você pode pegá-las.

    • Lucas Radaelli says:

      Tentei isso inicialmente, mas não estava conseguindo usar a peneira e a panela para fazer a água escorrer. Eu tinha medo de perder o controle e me queimar, por isso tentei pescar as salsichas. Demorou mais, mas acho que no final foi mais seguro.

  8. Giórgia says:

    Ah, adorei!

    Parabéns pela lasanha, pela coragem..rs…e pelo empenho! Mexer num forno quente, sem enxergar e sozinho não é pra qualquer um!

    Concordo com a moça aí de cima, mesmo que você ache o texto bobo, publica! É muito bacana acompanhar sua rotina aí!

    Conta mais do Timmy?!
    Beijo

  9. Dani says:

    OI Lucas!

    Tem escorredor de macarrão aí? Se sim, é ideal pra escorrer a água das salsichas!

    Eles costumam ser largos e fundos, parecendo bastante com uma panela, o que diminui a possibilidade de você se queimar, se colocá-lo dentro da pia, por exemplo, e despejar a água com salsichas e tudo dentro dele. Pelo barulho da água caindo no escorredor você sabe se tá jugando no lugar certo, e se jogar errado, estando dentro da pia o escorredor, não vai ter nenhum problema.

    Depois que tiver caído tudo, retira o escorredor, coloca em seu lugar a panela quente e joga água, pra não correr o risco de se queimar, e com o garfo pesca, beem mais fácilmente, as salsichas.

    Desculpa o comentário grande.

    TE sigo no tw, não sou uma cozinheira de mão cheia, mas me viro bem. Querendo dicas só gritar.

  10. romário fot says:

    olá novamente, sou cego também e nunca tentei conzinhar. mais o professor lucas ta dando uma aula!

    abraços cara, e uma ótima caminhada a e.

  11. Beatriz says:

    Oi Lucas!
    Descobri seu blog hoje, já li vários posts e estou adorando saber um pouco mais sobre seus desafios e como você consegue superá-los!
    Tenho uma pergunta: onde você estudou alemão em Curitiba? Vou me mudar ano que vem para lá e tenho interesse em ir para a Alemanha também. Me preocupo com vocabulários de termos técnicos, por causa da faculdade. Alguma dica?
    Espero pelos próximos episódios da sua “saga épica”!

  12. Diniz says:

    Lucas! Estamos sentindo falta de mais textos, de mais histórias da sua rotina na alemanha.
    Além da sua determinação e coragem, tem um diferencial nos seus escritos, cara. A forma com a qual você encara as coisas e as expressa.
    Não nos prive dos seus posts por muito mais tempo.
    Grande abraço!

  13. Wal says:

    Oi Lucas,

    Estava procurando no youtube vídeos sobre leitores de tela e encontrei o seu. A partir disso passei a assistir outros vídeos seus, achei seu blog, enfim, digamos que virei uma fã.
    Gosto de ler teus textos. Escreva mais.

    Abraços.

  14. Roberto Paixiäo says:

    Existe algum manual pra mexer no ifone.

  15. Stephanie Madeira says:

    Olá Lucas! Me chamo Stephanie e trabalho na Seção Braille da Biblioteca Pública do Paraná, no Brasil. Além do emprestimo de livros, procuramos fazer palestras para os deficientes com assuntos que possam interessá-los. Achei a ideia de uma palestra para incentivá-los a fazer intercambio (pois temos muitos estudantes que usam nossa seção) interessante, entretanto eu gostaria de saber se há empresas especializadas a fazer a mediação para o intercâmbio de cegos, ou se você foi por uma empresa convencional, como foi etc. Gostaria de saber como foi o seu processo para fazer o intercambio. Por favor entre em contato comigo pelo meu email: stp.madeira@gmail.com
    Abraço!

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