A Aventura

Nesta terça-feira eu acordei puto.
Puto com a vida, puto porque meu cartão, ou melhor dizendo, meus dois cartões haviam sido engolidos pelos caixas automáticos, sem motivo aparente.
Eu tinha 20 euros no bolso e precisava pagar o aluguel de onde moro, fora esse problema, eu tinha que aprender uma série de novos caminhos até os lugares onde eu tenho aula. Talvez, para quem enxergue, essa história de aprender um novo caminho pareça boba mas problema, quando não se enxerga, é que por mais que eu tenha informações precisas de como chegar do ponto A ao ponto B algo pode ocorrer errado, no meio do caminho, e eu me perder completamente, por exemplo, aqui, em Karlsruhe, estão construindo o metrô, o que faz as ruas terem desvios estranhos, as vezes.
Aah, mas chega de eufemismo.
Retomando: quando existe uma construção, de uma estação de metrô, o desvio que tem que se fazer é uma merda. Aí surge a dúvida: como uma pessoa cega, normalmente, faria para lidar com essa situação? Perguntaria. Como EU faço para lidar com essa situação? Eu balbucio em alemão
fazendo o possível para a resposta que eu venha a receber seja um mero sim ou não, porque, se os caras resolvem responder muito demoradamente já fica complicado. As pessoas tem o costume de enfeitar demais a resposta e daí eu já não entendo mais nada.

Normalmente, gosto de fazer o caminho uma vez com alguém que enxergue, que vá me dizendo os pontos de referência ao longo do caminho, para depois eu fazê-lo sozinho. Mas, nesta terça-feira, meus amigos, preteou o Caqui pro meu lado.
Eu deveria ir na agência da Western Union, buscar o dinheiro que meu pai mandou as pressas para eu pagar o aluguel, ir até o banco alemão onde abri uma conta na semana passada para depositar a quantia necessária, para que, enfim, durante a tarde, debitassem da minha conta o valor que eu deveria pagar. Este seria o caminho mais longo, difícil e confuso que eu teria que fazer. E não tinha ninguém pra ir comigo, a não ser meu fiel companheiro, Timmy.

Comecei minha aventura entrando no site de transporte público para saber que trem eu deveria pegar. Com essa informação em mãos, eu busquei no google maps qual seria a direção a se pegar da estação de trem até a agência da Western Union, depois o caminho a ser feito até o banco. Do banco para casa eu saberia fazer, porque já havia feito com um amigo.

Estava com medo, admito, mas fui mesmo assim (só uma nota, ainda em tempo, eu já disse que tava puto?)

Chegando na estação, na frente da universidade, onde eu pegaria o primeiro trem, algum desgraçado estacionou um carro para descarregar coisas bem no caminho que eu sempre faço para chegar até a plataforma, o resultado foi que eu tive que fazer outro caminho e não me toquei que estava andando no meio dos trilhos. Quando eu ouvi o trem vindo ao longe, tocando o sino, eu logo fui para o lado e achei a plataforma. Não sei quão perto estive de ser atropelado, mas façam o teste aí: se vendem, vão no meio do trilho e esperem ele buzinar para vocês e daí sim saiam do caminho. É uma ótima maneira de começar o dia, por um pouco de emoção na vida.

Entrei no trem com o nome da estação que eu desceria na cabeça, prestei atenção enquanto os pontos eram anunciados. A minha parada foi anunciada, o trem parou, e nada aconteceu. As portas não abriam e acreditem… não tinha ninguém na porra daquele vagão!!!
Eu deveria ter morrido atropelado alguns minutos antes e agora estava tipo em um trem fantasma.

O trem partiu e eu me fodi.
 Aqui na Alemanha, para que a porta do trem abra, é necessário que se aperte um botão que fica normalmente na porta do trem ou em alguma barra de ferro perto da porta, esse sistema é similar aos ônibus de Curitiba. Eu procurei em todos esses lugares e não achei nada.

 Na estação seguinte, eu saí e fui logo exercitar o meu alemão da pior maneira possível.
Eu não sabia onde eu estava, não sabia como voltar, ou seja, a resposta que me dariam seria complicada. Falei com uma mulher por uns 2 minutos e, incrivelmente, eu entendi ela super bem. Ela me levou até outra plataforma, entrei no trem e voltei até o ponto anterior.

Quando eu cheguei, onde eu queria ter chegado antes, comecei a relaxar um pouco, afinal, as coisas estavam começando a dar certo. Ao descer do trem, notei uma coisa estranha, o ambiente não estava muito como deveria estar. Não havia a esquina que o google disse que haveria. Tentei falar com um velhinho que estava por lá mas não entendi absolutamente nada do que ele me disse. Saí andando aleatoriamente até encontrar uns casais, para os quais expliquei minha situação. Adivinhem? O site me passou as coordenadas erradas. Não era aquele ponto que eu deveria ter descido.
 Os caras me colocaram em outro trem e lá fui eu, para outro lugar que não fazia nem noção de onde era, andando em um caminho que, muito provavelmente, teria uma construção (e, sim, tinha uma construção no meio). E pensar que só eram 10 da manhã.


Chegando no lugar, eu, simpático que sou, já fui dando bom dia para quem estivesse ali pra me ouvir. Encontrei um outro velhinho que provavelmente tava indo jogar gamão na praça, porque, aparentemente, ele tava só andando de trem a toa, pelo menos foi o que eu entendi.
Andei com ele por um tempo, enquanto, o simpático senhor, tentava me explicar o caminho que eu deveria fazer, ele perguntava o tempo todo: você me entendeu? E eu respondia com um, sincero, não. Ele tentava explicar de novo, até que uma hora, me cansei e disse que havia entendido, só para ir falar com outra pessoa. Não tinha jeito, o sotaque dele era muito diferente e eu não identificava quase nenhuma palavra.

 Desviei a construção seguindo o fluxo de pessoas. Eu fui ouvindo para onde elas estavam indo e fui atrás. Teve momentos que foi meio complicado porque os grupos se dividiam, mas eu esperei um pouco mais para identificar algum padrão. As pessoas que queriam desviar da construção esperavam, no que era aparentemente um semáforo, enquanto as outras desciam a quadra direto.

 Fui subindo, finalmente, a rua onde eu deveria estar. Percebi que tinha umas mulheres andando atrás de mim já algum tempo, então perguntei se elas subiriam mais a rua e, se sim, se eu poderia ir junto com elas; assim quando vissem o número que eu buscava, me informassem.
Deu certo, cheguei na Western Union!!! LEVEL UP, PORRA!!!!

Depois que peguei a grana, saí do escritório e comecei a descer a rua, porque eu tinha ideia de onde seria o banco. Ouvi uma mulher falando português no celular e novamente usei a tática de acompanhar ela enquanto ela descia a rua, até que visse o número do lugar que eu buscava. Ela foi comigo até o banco.

 Finalmente, meus amigos, eu cheguei no banco. Depositei a dinheiro, saí do prédio e desci, tranquilamente, a rua até a praça onde eu sabia chegar. Encontrei um restaurante, o McDonald’s, pelo cheiro, entrei e comi um hambúrguer: o hambúrguer da vitória.

 Foi uma experiência super assustadora.
Quando eu não entendia o que as pessoas queriam me dizer eu ficava muito incomodado porque poderia ser uma informação importante que eu estava perdendo, ou algo do tipo. Mas, no final das contas, deu certo.
Eu paguei o aluguel, almocei, fui para a aula depois e, no final do dia, fui dormir feliz, porque isso que é independência. Ser quase atropelado pelo trem mas sobreviver :P

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Comments

18 Responses to A Aventura

  1. Talita says:

    Ok, vou tentar fazer o teste do trem hahaha Caramba, é muita aventura para uma pessoa só.
    Boa sorte Lucas! Boas aulas! :)

  2. Leandro Theodoro says:

    Como eu já disse, você é um exemplo de vida Lucas, parabéns cara, vou guardar todas as histórias ditas e mostrar pro meu filho.

  3. Felipe Raabe says:

    Velho, tu é foda. =D

  4. Além dos parabéns de praxe que vc merece pela perseverança, vim aqui te avisar que por sua causa eu conheci o Victor Caparica, do Cego em Tiroteio, e estamos planejando várias gravações em conjunto. Espere e verás, ou melhor, ouvirás!

    Grande abraço, e um desejo ainda maior que vc encontre obstáculos cada vez maiores, para que vc mostre pra eles quem manda!

    Ricardo Herdy, do podcast Ghost Writer

  5. tonnydourado says:

    Caralho, dia épico, hein?

  6. Laura says:

    Caraca Lucas! Você é um grande exemplo a ser seguido!!

  7. Dyego Masao Simões says:

    Você é uma pessoa que eu admiro muito!
    Deus abençoe ricamente a sua vida em tudo que fizer!
    Um forte abraço Lucas!

  8. Felipe Schaker says:

    Lucas, cada dia é um passo vencido! Em duas semanas você já conseguiu a independência de andar sozinho, com certeza em pouco tempo vai estar guiando a brasileirada aqui!

  9. Estrela (@estrela__) says:

    Olá Lucas! Meu nome é Estrela e também estudo na UFPR. Meu irmão também é cego então entendo em parte o que está passando haha
    Mas força que logo logo fica tudo mais fácil!

    Boa sorte!

    p.s.: E eu achando que o meu intercâmbio tinha sido difícil hehe

  10. National Kid says:

    Lucas, isso sem dúvida foi um Level Up.

  11. Pai says:

    Não esqueçade agradecer a Poressora LILIAN, pelas aulas de mobiidade, com certeza pensou nela, (mas não precisa revelar seus pensamentos sobre ela, se não forem apropieados).

  12. Dani says:

    É isso aí. Independência exige valentía, e muuiiitas histórias pra compartilhar no blog, com os amigos, e futuros filhos e netos!
    Parabéns por ter a coragem de aprender e reaprender isso tudo indo tão longe.

  13. Itiro says:

    Olha, Lucas, já fui mochileiro e passei por vários apertos, que nem se comparam aos seus. Você está em um Level Up. Abração e “ganbatte“!

  14. Rafa primo says:

    Cara!!!!! Gostei demais desta !!!!! Toca o barco!!!!! Cada dia melhor e independente!!!!

  15. Leonardo says:

    Isso jah eh assustador para qlquer um, vc passou no nivel hard extreme! Level up.

  16. Nilda says:

    Sei que isso parece papo de velho, e acho que é mesmo, mas..
    Estas suas experiências novas e, principalmente, as ruins, são ótimas para que você realmente adquira a sua independência.
    Porque ser independente é conseguir resolver estes problemas. Cego ou não, só se é independente quando se consegue resolver os problemas cotidianos por conta própria.
    Depois disso, até podemos deixar que outros resolvam, mas saber que conseguimos fazer algo quando queremos ou precisamos é muito bom.

  17. Gustavo Sá says:

    Muito boa história Lucas hahahaha, fiquei imaginando o teu desespero de não entender o que o velhinho dizia, muito ruim isso :) .

  18. Flávia says:

    Até para quem enxerga é difícil andar em uma cidade diferente… haha, mas você conseguiu chegar onde queria! Epic win!

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