Golfin Kaethar – a história de um halfling

Esta é a história do meu personagem de rpg, um halfling ladino. Escrevi ela hoje e compartilho ela aqui com vocês, espero que gostem!

― Trinta anos. Trinta anos que aconteceu tanta coisa que é difícil relatar os pormenores dessa história. O que remanesce na mente da grande maioria são os pontos chave que mudaram o rumo da história, bruscamente, e por tantas vezes. Na mente de poucos, aqueles que sobreviveram à traição do mel de ouro guardam seus segredos, visando um dia a retomada do que é seu por direito, embora isso pareça ser impossível. O que é propriedade por direito daqueles que foram traídos um dia já não existe mais. O material se fora, naufragado ou escondido por mentes astuciosas. O que resta para ser retomado é o orgulho de uma família, uma comunidade e o respeito pelas lembranças de amigos que agora jazem no fundo do mar.

Mas para aquele que tem contato com esse manuscrito, que em um instante quase foi derrubado por uma onda de informações, se resistente o for, pode voltar e nadar até o ponto que deseja alcançar. O ponto que tudo ficará claro e as dúvidas sanadas. Pois agora que um pouco da água de toda essa história já está em seu corpo, volte a entrar neste mar de dúvidas e incertezas, para conseguir mais da fonte. A fonte que explicará a história de Golfin Kaethar.

Há trinta anos tudo começou, mesmo que todos os envolvidos não soubessem que aquele seria o ponto inicial. A largada foi dada quando a última gota de tinta caiu sobre a carta que selava um decreto de guerra entre duas nações de humanos, localizadas perto do reino Halfling. Para aqueles halflings que a vida seria totalmente mudada em um piscar de olhos, o real motivo da guerra nunca foi esclarecido. Um quebra cabeça foi sendo montado, embora as peças infelizmente nunca parecessem ser do mesmo formato ou tamanho. Mesmo que o mais hábil dos halfling tentasse montar esse mosaico de informações não obteria sucesso. Informações quebradas, outras deformadas. O quebra cabeça nunca seria completo nem perfeito, mas já dava uma boa idéia do que acontecia lá fora. E isso dava um curso de rumo nas ações dos halflings, embora em um primeiro momento essa ação fosse um profundo sentimento de indiferença para com a guerra que se desenrolava a centenas de quilômetros.

Os halflings, um povo que não é dado à guerra, sempre foi pacífico por natureza e continuaria o sendo, mesmo sobre grande pressão, sempre prezando resolver as questões pela diplomacia ou esperteza. Mas esse sentimento de indiferença logo seria substituído por um de inconformação e auto proteção, sentimentos com tanta intensidade que muitos não acreditariam ser possível existir dentro de corações tão pequenos. Pobres aqueles que têm esse pensamento.

Os corações dos halflings são pequenos no tamanho, mas inabaláveis na constituição e ferocidade que podem guardar. Com toda a certeza, aqueles que perturbam a paz que os halflings tanto amam, as festividades e celebrações que eles tanto realizam, caro teriam que pagar.

O reino humano que deu início a guerra só o fez porque se sentiu ameaçado por algo. Rotas comerciais, diziam alguns, demarcação de fronteiras diziam outros. Aí estavam duas peças do mesmo quebra cabeça que poderiam estar no mesmo lugar, e ninguém sabia qual era a certa a se pôr. A mobilização do exército do reino atacante foi algo notável, e a uma primeira vista o reino invadido sofreu grandes baixas pela velocidade do ataque. Mas ao chegar ao núcleo do inimigo, o qual era constituído por sólidas fortalezas e um ótimo sistema de troca de informações, o avanço foi contido e até mesmo rechaçado. Sendo assim, a guerra voltava ao seu estado inicial. Os dois reinos tiveram um tempo de inércia, onde nenhuma mobilização visível era notada. Mas por de baixo dos panos os planos eram traçados, e depois de um leve momento de quietude, o qual até poderia ser confundido por paz, a verdadeira guerra estourou.

O reino atacante agora sim tinha mais motivos para se sentir ameaçado, pois o contra-ataque foi de velocidade e organização equivalente ao ataque original. E se o ataque do primeiro reino era eficiente, sua defesa era comprometida em vários pontos. A guerra começou a tomar um rumo inesperado ao primeiro reino, que foi forçado a fazer uma penosa aliança com os goblins. Os goblins há muito tempo haviam tornado-se criaturas “pacíficas” devido seu número reduzido. Sua natureza sempre foi violenta, mas reprimidos de todos os lados por outros povos, não tinham chances para porem para fora de suas bainhas suas espadas quebradas. Mas ao primeiro chamado de peleia, e carnificina, correram de bom grado a encilhar seus cães de montaria, lobos de guerra e juntarem os cacos de metal que chamavam de armas. E, logicamente, correr à guerra atrás de espólios e brigas sem ao menos saber se havia chances de vencer. O todo não vencia, não era assim que os goblins pensavam. O individual vencia ou morria, e tinha ouro. É assim que todos pensavam, juntar ouro para fugir o mais cedo possível.

A situação voltou a equilibrar-se, porém neste momento não durante um momento de quietude, e sim de sangrentas batalhas que ocorriam a quase todo o momento. A luta agora era por polegadas de território, e o objetivo final era derrotar em suma maioria o exército inimigo, para que não pudesse reerguer-se e bloquear a invasão ao reino inimigo.

Se foi dito que os goblins não são criaturas notáveis por sua inteligência, isso é verdade. Mas sua ânsia por riquezas está em seus corações todo o momento. Parte dos suprimentos do primeiro reino teve que ser destinados ao reino Goblin, que visava formar-se em algum lugar. Os goblins haviam sido espalhados por vários lugares do mundo, e desejavam um reino para se agruparem novamente. Sobre o comando de Greabakhe, os mantimentos eram estocados e empregados para limpar uma região de terra inabitada para construir a capital Goblin, da onde, os futuros planos de conquista seriam iniciados.

Neste momento, o número de mantimentos que chegava ao reino Halfling, que comerciava com o primeiro reino humano, diminuiu drasticamente. Os preços subiram em uma taxa nunca observada por aqueles que tinham anos de vida e histórias para contar. Seriam tempos difíceis, diziam aqueles que conseguiam ter uma visão geral do panorama atual. E estavam certos, contudo, não sabiam eles que tudo ainda iria piorar.

Os halflings, amistosos que são, ainda assim entenderam a diminuição dos produtos que chegavam a suas terras, e diminuíram sua cota diária de comida, que era alta, diga-se de passagem, diminuíram seu consumo, e começaram a viver mais modestamente. Um reino que era tomado pela alegria e festividade virou algo mais soturno e melancólico, mas, ainda assim, um reino que guardava uma felicidade dentro de cada halfling.

Sendo a inteligência algo presente na vida destes fabulosos pequeninos, logo sugestões para melhorar a qualidade de vida de todos foram posta em debate. Um grupo de halflings mercadores que se destacava pela inovação constante, reuniu um grupo de jovens halflings e os mandou em um barco comprado recentemente atrás de outras fontes de comércio. Os pequenos empreenderam a tarefa com entusiasmo, acompanhado por um grupo de marinheiros humanos que os ensinariam a arte do mar.

O barco zarpou, e durante dois meses aguardaram seu retorno, o qual seria uma espécie de reconhecimento por terras que se localizavam perto, e outras mais longínquas. Durante esse tempo, o número de mercadorias que chegava ao reino Halfling foi diminuindo mais e mais, até chegar a um nível crítico de abastecimento. As famílias estavam magras, os animais com os ossos a aparecer, e o término da guerra sem previsão de chegar.

Foi então que um mês e meio após a partida do barco de reconhecimento, os halflings receberam uma notícia que seria o ponta-pé inicial para uma abordagem mais drástica de toda a situação. O barco que havia sido enviado em reconhecimento foi tomado pelos goblins que gerenciavam a troca de recursos entre o reino humano e o rei goblin. Os poucos sobreviventes voltaram em barcos, parecidos com canoas compridas com velas.

Um dos sobreviventes, filho de um mercador muito rico, era um halfling que acompanhou o barco para aprender mais sobre a navegação e, quando voltou para casa, relatou tudo ao seu pai, que logo se propôs a tomar uma atitude mais radical. Em um mês de arranjos, firmou uma aliança secreta com o reino que havia sido atacado inicialmente, o qual forneceu um navio pequeno de guerra para os halflings, tudo que os mesmos precisavam.

Com poucos ajustes, o navio estava totalmente adaptado ao seu tamanho, as gáveas, seus mastaréus, facilmente atingíveis através de cordas as quais os pequenos escalavam tão bem. Em conjunto desse navio de guerra, ao mar foram lançadas várias das canoas longas com velas, que eram soltas em momentos de patrulha por serem velozes e facilmente manobráveis.

Sobre o comando do navio de guerra foi posto a mulher que o mercador mais confiava, sua própria filha. Ela era conhecida por sua inteligência aguda e teimosia. Halflings zarparam e velejaram, seu navio de guerra e seus pequenos barcos, cheios de halflings com arcos e espíritos determinados a preservarem seus direitos.

E uma ação que iniciou como uma pequena defesa a vida, a propriedade e a liberdade dos pequeninos, diriam os mais filósofos, tornou-se uma poderosa ferramenta de guerra para quem a usasse. Os primeiros ataques realizados aos navios inimigos não tiveram qualquer resistência. Os goblins eram massacrados a distância por flechas, com seus navios danificados por aquelas que eram incendiárias. Cercados por todos os lados por pequenas embarcações parecidas com canoas que possuíam uma mobilidade espantosa morreram como formigas sobre o convés dos navios mercantes pagos como tributo pelo reino humano ao reino Goblin.

Mesmo quando tais navios começaram a ser tripulados militarmente para resistir à ameaça não foi suficiente para deter a astúcia halfling. Mais e mais canoas com velas foram lançadas ao mar, e dois navios de guerra também foram enviados pelo reino humano ao ver que a investida funcionava em bloquear o acesso dos mantimentos, com isso, os goblins começando a deixar o campo de batalha.

Agora, a posição dos halflings como corsários, termo diplomático para designar piratas que interceptam navios mercantes sobre uma bandeira, era consolidada e temida. As batalhas mais importantes travadas entre halflings contra humanos e goblins foram inúmeras, com maioria das vitórias de halflings.

Nessa época, eles tinham um nome que toda vez que era ouvido, era temido. Eram chamados de vespa do mar. Suas flechas como zumbidos e picadas mortais, aliados a embarcações que pareciam voar sobre a água, sobre o comando de uma mulher que era a abelha rainha de toda a colméia, as vespas do mar tornaram-se uma lenda viva, conhecida em todos os mares do mundo.

Golfin Kaethar nasceu sobre tempo de guerra, em um vilarejo costeiro onde algumas das canoas com velas aportavam para repor mantimentos e reparar armas. Seu pai era capitão de uma dessas naus, e Golfin desde pequeno acompanhou o pai em incursões onde não havia risco. Foi treinado na arte do arco como seus companheiros, e também sabia usar a espada. Aprendeu a nadar, embora não gostasse do esporte sabia que ele poderia ser um dia necessário.

O tempo passou rápido, e em intervalos de paz e momentos conturbados pela guerra, a vida deste jovem halfling foi passando até que ele chegasse à adolescência. Nessa época, os goblins apoiavam em muito pouco os humanos, apenas restando alguns goblins mercenários nas fileiras. O restante havia se deslocado para a mais nova capital goblin montada pelo antigo rei goblin com ajuda dos tributos pagos pelo primeiro reino.

Quando Golfin chegou à idade de juntar-se as fileiras, ele fez parte da colméia do mar, o navio comandado pela filha do mercador. Teve chance de navegar apenas dois meses a bordo desta magnífica nau de guerra até estar cara a cara com sua primeira batalha no mar. E não foi uma batalha comum. Foi à última batalha, decisiva entre halflings e goblins, os quais levavam os últimos mantimentos e armas para sua mais nova capital.

As baixas dos dois lados foram enormes, mas a vitória foi dos pequenos halflings mais uma vez. Nessa época, a batalha entre os dois reinos humanos também estava por terminar, e o primeiro reino, o que havia iniciado a guerra, acabou perdendo. Uma convenção foi acertada para combinar os tributos que deveriam ser pagos e a quem deveria ser pago.

O reino que havia dado os navios para os halflings voltou-se contra eles, imaginando que eles poderiam exigir uma parte do tributo que deveria ser pago todo ano. Em conta disso, uniram-se com seu mais novo aliado, o reino que acabara de perder uma guerra e navegaram contra os pequeninos que agora estavam enfraquecidos devido à última guerra. O massacre foi como nenhum outro. Poucos sobreviveram, e a morte do pai de Golfin foi neste trágico dia. A abelha rainha da colméia do mar conseguiu safar-se, mas seu paradeiro é desconhecido até hoje. Muitos acreditam que ela até mesmo morreu na fuga. Mas Golfin conseguiu escapar, deixando sua comunidade da vespa do mar para trás, como muitos outros. Fugiu do reino halfling evitando uma perseguição futura e vaga pelo mundo talvez tentando reencontrar a abelha rainha, embora ele não acredite muito nessa possibilidade. Virou uma espécie de peregrino tentando usar suas habilidades em algum lugar. Um garoto que nasceu sobre um navio, que sabe usar o arco, lutar e consertar coisas. Talvez em terra ele tenha que provar seu valor mais do que nunca.

Skip to top

Comments

One Response to Golfin Kaethar – a história de um halfling

  1. Felipe Rosa says:

    Caramba Lucas, muito bom, gostei mesmo! Adoro ver história de personagens criados por outras pessoas, ajuda muito na hora de criar os meus, não copiando, mas agrega conhecimento e é muito bacana sentir esse “mundinho” de cada um.
    Sinceramente, parabéns. ^^

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

*

You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>