Volta da bengala: do cinza para o branco

“- Vai andar de bengala, cego desgraçado!!!!”

E foi assim que os ventos começaram clamando nessa história. E eu voltei; Aliás, comecei. Eu nunca
havia começado de verdade para falar a sério.

Então, como muitos de vocês já sabem, eu era um cego que não andava de bengala. Em termos mais corriqueiros seria o mesmo que dizer que eu
era o nerd que não usava computador, o viado que não escutava Justin Bieber, enfim, Romeu sem Julieta, mulher sem …. tá explicado. Era algo fora dospadrões.

Embora eu discorde que isso não fosse tudo isso que muita gente alardeia, afinal, eu tinha meus motivos, eu resolvi voltar por querer uma
independência maior. Errei (em parte) sobre a independência, e ainda tudo tem um preço, e esse é alto.

Andar de bengala praticamente é encarar dois desafios. O primeiro, é aprender as técnicas de mobilidade, que são os caminhos que você costuma
frequentar, noção de distância e orientação. Destes, o que faço hoje em dia é apenas aprender os caminhos porque mudei de cidade, então as coisas mudaram um pouco. E algumas técnicas diferentes das que aprendi ou que me faltavam, mas que não são obrigatórias, e sim maneiras de adaptar algo, ou se acostumar com

alguma situação e aprender a lidar com ela. A segunda coisa que você precisa aprender é encarar as pessoas.

O motivo que eu escrevo esse texto é porque eu sempre quis ler alguma experiência pessoal de alguém, como a pessoa encarou isso, como
lidar com isso. De fato eu não sei fazer isso direito, ou talvez não exista o jeito correto, só jeitos diferentes. O que acontece é que se
você é cego, existe uma grande pressão para que você idolatre a bengala como forma de independência, e eu não concordo com isso.

Merda acontece, como costumam dizer por aí. E andando de bengala eu noto como a coisa é frequente. Atravessar ruas complicadas, desviar de
imprevistos não detectáveis com a bengala, ir em lugares desconhecidos, entrar em um shopping e as escadas rolante terem mudado de direção,
muita coisa mesmo. E pessoas. Encarar pessoas.

Me contaram que as coisas mudaram muito de uns tempos para cá. Não existe mais aquela visão tão equivocada sobre deficientes visuais,
graças a vários filmes, novelas, meios de informação que falam sobre o tema. mas ainda existem vários comportamentos errados, e muitas vezes
chatos que incomodam pra caramba.

Mas a atitude das pessoas não é o meu motivo para não gostar da bengala. Eu não sustentaria meus argumentos em algo tão ridículo assim.
Isso é apenas consequência, algo contornável que com o tempo provavelmente se extinguirá.

Como falei antes, quem busca andar de bengala quer uma maior independência em sua locomoção. Mas se por um lado você está buscando
independência, por outro está se tornando dependente de muita gente para fazer as coisas que a bengala não te permite, e pior,
depende de estranhos.

Então essa história de: – “Estou andando de bengala para ser mais independente.” não me convence. Anda de bengala por necessidade, que a
dependência em muita coisa continua. Talvez de um jeito diferente, mas continua. E parando para pensar, todas as pessoas do mundo dependem das
outras de alguma maneira, a diferença que para quem tem alguma deficiência isso é mais evidente, mais constante.

E aí está o meu real motivo de nunca ter querido andar de bengala. Eu não tinha uma necessidade tão grande assim. Sempre tive vários amigos
por perto que não se importavam de me levar da cantina onde eles estavam para a sala de aula que eles iriam, afinal, era o mesmo caminho. Amigos
que não se importavam de me guiarem em um show onde nós nos divertiríamos, ou seja, nunca ouve uma real necessidade. Eu dependia
deles? Dependia. E ainda dependo. A diferença que são conhecidos, e eu tento ajudá-los em troca disso que eles fazem por mim, de alguma
maneira.

Já agora, que por necessidade eu começo a andar com a bengala, eu dependo das pessoas em algumas coisas menos, em outras mais. Talvez andar de bengala
seja uma troca maior, os benefícios que você tem são maiores se comparados com os problemas que você terá, eu não saberia dizer ainda, estou me
acostumando com isso. E é por isso que estou tentando. Por necessidade, e para ver se a troca é válida, se é maior, o que muda, o que fica. Mas
ainda assim, não idolatro a bengala. O que tenho certeza é que não gosto do seu tec tec constante, sua necessidade de prestar a atenção a cada
passo que você der, a atenção focada apenas no ato de andar e nada mais. Quem disse que caminhada era para relaxar, ouvir música? De bengala é
mais uma aventura por aí :P

Mas a experiência está sendo válida, não estou a achando de todo mal. Me deslocar sozinho por aí é algo interessante e até reconfortante
em ter a liberdade de ir e vir a hora que eu quiser.

Agora, o meu questionamento que não mudará nada na vida de vocês, mas sim na aparência do meu avatar que eu ando por aí: – eu coloco
espinhos na ponta da minha bengala, desenho foguinhos nela ou a transformo em um cajado tipo do Gandalf?

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Comments

10 Responses to Volta da bengala: do cinza para o branco

  1. Taís says:

    Foguinhos, igual o House!
    ;D

  2. Cinthia says:

    Transforma num cajado!
    Vai te fazer parecer mais sábio. ^^

  3. kz3r says:

    Faço minhas as palavras da Taís!
    Vc pode eventualmente tirar uma lamina de dentro dela tbm… lol
    Mas sério, aprende a andar por ai com sua cane in flames que vai ser mó foda. Proximo passo é vc vir a pé até aqui em casa! :D

  4. lucasradaelli says:

    Depois que postei esse post aqui eu queria tomar coca, não tinha coca em casa. Eu falei: vou até o jango (um bar perto de casa), e trago. Na empolgação fui, deu tudo certo. Cheguei lá, tava rolando um show na casa da frente, (e eu deveria ter ficado por lá, hahaha), e o bar tava fechado!!!! – haha, meio frustrante, mas como o kris me falou no twitter, valeu a experiência de eu ter ido até lá e voltado. Só não voltei com o “trofél” em mãos, mas foi legal.

  5. lucasradaelli says:

    ah, e ta empatado: cajado do gandalf, e foguinhos na bengala tipo a do house! hahahaha

  6. Oscar says:

    Finalmente um post! mais uma vez gostei do texto =). não abandona essa merda! hueahuehae

  7. lucasradaelli says:

    Merda boia. De tempos em tempos essa coisa aqui sobre no seu assinante de feeds. LOL

  8. Futanari says:

    gandalfo na cabeça, ctza =D
    adivinhe quem é gatinho

    • lucasradaelli says:

      haeuhaeeaaeuhae, futanari, hahaha. Ri muito com o e-mail que você colocou, se ele existir mesmo, vai ser comédia.

  9. marcel says:

    Faça os fogos. Vai ficar igual a bengala do house. Foda!

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