A primeira vez a gente nunca esquece

É bom começar avisando que essa é uma história idiota demais.

Alguns dias atrás eu estava nostálgico pensando em alguns acontecimentos da minha infância. Dois deles me vinham constantemente a cabeça por algum motivo estranho que depois notei ser as minhas tentativas de voltar a andar de bengala.
Não, não sou velho, não sou aleijado, nem bêbado constante, mas sim cego. Apenas um pequeno detalhe. E sabendo disso é inevitável perguntar – ué,mas você já não deveria saber andar de bengala com essa idade? É, de fato eu deveria, mas digamos que eu fugi um pouco aos padrões.
Some amigos generosos que sempre andaram com você para um lado e para o outro, pais que tinham a minha escola no caminho para o trabalho, entre outras facilidades, essa foi uma habilidade que fui procrastinando ao passar dos anos. Habilidade que, sempre que comento com outros deficientes visuais eles acham estranho, porque isso é algo muito normal para eles. Por outro lado, se eu digo que faço uma faculdade de exatas, lidando com todos aqueles gráficos e contas, eles se surpreendem. Cada um com suas facilidades. A diferença que eu não acho estranho – eu sei, sou o estranho no ninho :P

E com os pensamentos que eu tive eu refleti bastante como a curva de aprendizado de certas coisas é inconstante. Primeiro saltos, depois tudo fica constante, novos saltos. Enfim, vou descrever agora como foi a minha primeira viagem de bengala por aí.

Era uma quinta-feira ( Thusday), dia de Thor, deus do trovão, e o que poderia acontecer de errado? Tudo, é claro, porque isso não significa nada, a não ser que a minha história começou diferente de “era uma vez”. Como eu já disse, era quinta-feira, e sendo mais preciso final da tarde. Não muito fora do costume, Cascavel (cidade onde eu morava na época) estava extremamente quente, um calor quase insuportável. Eu estava no msn conversando com alguns amigos, e comentei que gostaria muito de beber uma coca-cola gelada naquela hora, “curtir a pira”, como um
dos meus amigos que eu conversava naquele momento costumava dizer.
As vezes, amigo é uma merda mesmo. Ou não. Depende do ponto de vista que você observa a coisa antes ou depois. Eu já disse que deu merda, vocês só estão esperando para saber como foi, mas começou aqui. Um deles me incentivou muito.
- Vai lá, cara! – Essa foi pouco convincente;
- Vai ser um desafio, você gosta desse tipo de coisa! – Tava melhorando, admito;
 Cara, duvido que você consegue. – Ok, essa foi a gota d’água. Eu vou.
Tomei de trás da porta minha bengala, a qual provavelmente deveria estar cheia de poeira, a desdobrei como sempre faço: soltei o elástico que a prendia e a joguei para frente, armando como se fosse uma lança. E sem essa que isso é um perigo, eu só faço em lugares abertos e despovoados. Afinal, não quero que me vejam brincando de super herói por aí.

Saindo de casa, meu irmão perguntou a onde eu ia, e eu com todo o orgulho possível na voz respondi:
- Na padaria. Provavelmente ele disse um “lol” ou um “boa sorte”, whatever, eu
estava iniciando minha jornada.

Cheguei no portão de casa, o destranquei. OK, essa parte era fácil, eu já tinha feito esse caminho, minha casa pelo menos eu conheço muito bem.
A primeira quadra das três que eu deveria percorrer foi relativamente tranquila. Atravessei a rua, virei a esquina, e continuei pela segunda quadra. Escrevendo esse texto, consigo me lembrar de muita coisa que aconteceu no trajeto, como eu tendo que esperar o ônibus sairdo ponto de ônibus para eu poder continuar, eu não tendo certeza se era outro ônibus que havia estacionado ou um caminhão, enfim, pequenos detalhes.
E a merda começou. A próxima esquina que eu deveria atravessar era um problema. Eu deveria manter a linha reta na quadra que eu estava, atravessar uma rua transversal e continuar o caminho. O problema daquela esquina que ela não era uma esquina direta de 90º na lata. Ela ia virando bem levemente até completar toda a curva, como se fosse uma curva mais aberta. Em função de eu ter tido que desviar de um carro que se localizava bem perto da esquina, eu perdi a noção da maior parte da inclinação da tal curva, pensando que mantinha uma linha reta. Acabei virando ao invés de atravessar a rua e continuar, e comecei a minha segunda jornada.
Caminhei, caminhei, e logo me dei conta que tinha me perdido. Andei, e até que me orientei bem, apesar de todos os contratempos. Dei a volta na quadra, e não lembro muito bem mais o que acabei fazendo. Continuei seguindo reto na rua da minha própria casa umas duas ou três quadras, até que resolvi voltar pelo mesmo caminho que havia vindo, porque escutei uns garotos jogando bola. Conversei com eles, e eles me deixaram em casa.

Essa é a história de um garoto que tinha um sonho. Tomar uma coca. Foi sua ruína, acabou passando só mais calor e um pouco de medo e insegurança. mas no final das contas, foi legal, aprendi muita coisa e depois dessa nunca tive outros problemas.
O que eu aprendi? – Eu sei que é difícil, mas agora se eu preciso de algo, uma habilidade que será necessária no futuro, eu já começo a praticá-la aos poucos. É melhor que as merdas aconteçam logo.

E podem rir. É só por isso que me lembro dessa história as vezes, dar algumas risadas. Quem não dá um FAIL as vezes?

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Comments

13 Responses to A primeira vez a gente nunca esquece

  1. kz3r says:

    Procrastinar é uma palavra bonita. Realmente, com esse fail vc deve ter aprendido algo importante: Largar a bengala de vez….aseuaiheuiasheauis, anyway, acho q isso ajudou a aumentar a sua busca incessante por coca 25 horas por dia, tipo um trauma vicioso…=P

  2. lucasradaelli says:

    hahahahahaha, você sempre tem teorias interessantes, cara, uahuahauhauha

  3. Aurora says:

    Gostei da história, me identifiquei com cada passo perdido (?), afinal, eu me perco, pelo menos, uma vez por semana lol

  4. lucasradaelli says:

    hahahaha, não é só eu que me perco, então :P

  5. Oscar says:

    bom, podia ter pedido pros moleques uma carona pra padaria :P
    mas deve ter sido uma bela aventura!

  6. lucasradaelli says:

    Isso foi no meio da tarde, no final minhamãe chegou e depois eu fui na padaria com ela buscar a coca xD

  7. Du =] says:

    “Afinal, não quero que me vejam brincando de super herói por aí.”
    Épico velho.
    AEHUUAEUaeEHUahUAEUAEHuaea
    Porra, eu brincava contigo. =/
    E eu lembro de quando você me contou isto.
    Comédia xD

  8. lucasradaelli says:

    Pior que a gente brincava mesmo. :P – mas era no quintal, aquilo era nossa arena de combate cara, lá era permitido auhauhauhaua.

  9. Pati says:

    Cara, isso não é uma história idiota ¬¬
    Na real, é bem interessante e comédia pra caralho tipo a parte de brincar de super herói. Ri alto ali!
    Se isso te consola, pensa que uma vez eu tava voltando à noite, de carro, deixei uma amiga em colombo em casa e vim pelo caminho que ela me indicou.
    Tive que rodar 50km até um moço bonzinho me indicar o caminho de volta…
    Um dia eu te conto essa história direito, pq é bizarra.
    E eu já me perdi a 3 quadras de casa T.T (A pé) *monga, oi*

  10. lucasradaelli says:

    hahaha, conte sim, vou querer ouvir essa história.

  11. Lauro says:

    pelo menos agora o frigo do seu trabalho esta (deveria estar) cheio de coca
    deveriam fazer um comercial da coca com vc, o cara que se perde no caminho mas nao perde a sede…

    vim andar por aqui pq vi o link no msn e achei que era aquele que vc pretendia criar semana passada, mas esse vc ja tem faz tempo…

  12. Vitor Cid Moreira says:

    AHAH! Que história mais engraçada, não achei idiota não, muito pelo contrário. Todo mundo comete algum erro bizarro, quem não?! ^^

    Belo post. Você escreve muito bem. :)

  13. Gabriel Aquino says:

    hauhauehhueuahehuaehua

    Lucas, somos bem parecidos nesse aspecto da bengala….
    Eu perdi a visão com 16 anos, e hoje estou com 18.
    Fiz aula de mobilidade por um tempinho, mas tava de saco cheio de ter de ir longe pra aprender a andar por um lugar que provavelmente não voltaria a andar.

    Como você mesmo disse, dependo do braço dos amigos, meus pai me levar de moto para a faculdade, ou sempre estar de carona.
    E não tenho um cão guia e devo demorar pra conseguir um.

    O máximo que andei sozinho aqui perto de casa foi até a esquina. ueuaheuhauuehaeuuheauh

    Mas cada dia mais a vida me cobra uma maior independência, então como não tenho um amigo canino confiável, vou começar a minha aula de mobilidade sozinho mesmo. Sair por essas ruas aqui que já conheço pela época que enxergava e ver no que dá.

    Abraços!

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